Unidade, alteridade e diversidade em Gálatas 3,26-29: Somos um em Cristo Jesus

Unity, otherness, and Diversity in Galatians 3,26-29: We are one in Jesus Christ

Unidad, alteridad y Diversidad en Gálatas 3,26-29: Somos uno en Cristo Jesús

Waldecir Gonzaga1 ,Gabriel Silva Ribeiro1

1Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro - BRASIL

DOI: 10.26807/recifit.v2n4.80

Fecha de envío: 11/11/2025 | Fecha de aceptación: 24/11/2025 | Fecha de publicación: 17/12/2025

Como citar:

Gonzaga, W., & Silva Ribeiro, G. (2025). Unidade, alteridade e diversidade em Gálatas 3,26-29: Somos um em Cristo Jesus. Revista Ecuatoriana de Ciencias Filosófico-Teológicas, 2(4), 40–56. https://doi.org/10.26807/recifit.v2n4.80

Resumen

O estudo dedica-se a uma análise da literatura paulina, com especial atenção à Carta aos Gálatas, tradicionalmente reconhecida como uma das cartas protopaulinas do Novo Testamento. Nessa Carta, observa-se o protagonismo de Paulo, conhecido como “apóstolo dos gentios” (Rm 11,13), na propagação do cristianismo em um cenário caracterizado por significativa diversidade cultural, étnica e social. Desde seu surgimento, o cristianismo foi marcado pela pluralidade cultural, étnica e social, nunca sendo restrito a um único grupo, mas apresentando-se como um movimento integrador que rompe barreiras culturais e sociais.

A mensagem de Paulo destaca a importância do acolhimento da pluralidade e o potencial do Evangelho como elemento unificador, sem eliminar as características específicas de cada cultura. Essa visão de unidade na diversidade foi resgatada pelo Papa Francisco em sua Exortação Apostólica Evangelii Gaudium (2013), central em seu pontificado, que reforça a proposta de um cristianismo inclusivo, aberto ao diálogo intercultural, e vê a alteridade como uma dimensão essencial do Reino de Deus.

O estudo defende que tanto Paulo quanto Francisco são representantes dessa perspectiva integradora, norteando a missão evangelizadora contemporânea para além das diferenças e promovendo uma convivência fraterna entre os povos. A discussão fundamenta-se no diálogo com estudiosos de exegese bíblica sobre os escritos paulinos, bem como no magistério recente da Igreja Católica. Desta forma, o estudo ressalta a atualidade do pensamento paulino, cuja relevância histórica permanece notável, além de sua aplicabilidade aos desafios da missão cristã em contextos plurais, sinalizando a continuidade e atualização do legado de Paulo para a evangelização atual.

Palavras-chave: Alteridade; Cartas Paulinas; Diversidade; Evangelização contemporânea; Gálatas; Unidade.

Abstract

The study is devoted to an analysis of Pauline literature, with special attention to the Letter to the Galatians, traditionally recognized as one of the proto-Pauline epistles of the New Testament. In this letter, Paul’s prominence is evident, known as the “apostle to the gentiles” (Rm 11,13), in the propagation of Christianity within a context characterized by significant cultural, ethnic, and social diversity. From its inception, Christianity has been marked by cultural, ethnic, and social plurality, never being restricted to a single group, but instead presenting itself as an integrating movement that breaks down cultural and social barriers.

Paul’s message emphasizes the importance of embracing plurality and the potential of the Gospel as a unifying element, without eliminating the specific characteristics of each culture. This vision of unity in diversity was revisited by Pope Francis in his Apostolic Exhortation Evangelii Gaudium (2013), central to his pontificate, which reinforces the proposal of an inclusive Christianity, open to intercultural dialogue, viewing otherness as an essential dimension of the Kingdom of God.

The study contends that both Paul and Francis are representatives of this integrative perspective, guiding the contemporary evangelizing mission beyond differences and promoting fraternal coexistence among people. The discussion is based on dialogue with scholars of biblical exegesis regarding Pauline writings, as well as the recent magisterium of the Catholic Church. Thus, the study highlights the relevance of Pauline thought today, whose historical significance remains remarkable, as well as its applicability to the challenges faced by the Christian mission in plural contexts, signaling the continuity and aggiornamento of Paul’s legacy for contemporary evangelization.

Keywords: Contemporary Evangelization; Diversity; Galatians; Otherness; Pauline Letters; Unity.

Introdução

O apóstolo Paulo pode ser legitimamente compreendido como um autêntico arquiteto de pontes, cuja missão fundamental reside na edificação de vias espirituais e comunitárias que conduzem à unidade no corpo eclesial e na família humana. Ao longo da história, a humanidade tem sido marcada por tensões e conflitos originados das múltiplas clivagens culturais, sociais, étnicas e de gênero, elementos que frequentemente alimentam divisões, marginalizações e desigualdades. Diante desse cenário, o cristianismo, entendido como experiência pascal do seguimento de Jesus Cristo, manifesta-se como a grande via histórica e existencial para a realização dos valores evangélicos de igualdade, fraternidade e justiça.

Em Cristo, o Verbo encarnado, toda utopia é superada pela realidade escatológica inaugurada em sua vida, paixão, morte e ressurreição; sua encarnação confere pleno sentido ao dinamismo do Reino de Deus, no qual não há lugar para segregações, exclusões e qualquer tipo de discriminação, pois, como atesta Paulo, “não há judeu nem grego, escravo nem livre, homem nem mulher, pois todos vós sois um só em Cristo Jesus” (Gl 3,28).

Provavelmente redigida por volta dos anos 54-57 d.C. (Gonzaga 2025b) a Carta aos Gálatas assume, sob a pena paulina, um papel manifesto e profético de liberdade cristã e igualdade radical. Trata-se de uma autêntica defesa teológica em favor da dignidade e da promoção integral da pessoa humana, recuperando aquilo que é mais essencial ao ethos cristão: a defesa incondicional dos que estão à margem, dos esquecidos e excluídos do tecido social, tanto nos tempos do próprio apóstolo quanto nos desafios enfrentados pelo cristianismo hodierno. Dessa forma, Paulo se coloca como guardião e defensor do autêntico Evangelho, restaurando o primado da graça sobre a lei e iluminando, à luz da cruz e ressurreição, o caminho da libertação para todos, em defesa da “verdade do Evangelho” (Gl 2,5.14).

É importante ressaltar que Paulo escreve a Carta num ambiente em que aqueles que aderiam à fé cristã em processo de distinção em relação ao judaísmo. Um dos grandes problemas enfrentados era a questão da circuncisão, que o apóstolo busca esclarecer, argumentando sobre a desnecessidade desse rito, pois o povo não estava mais sob o jugo da lei.

Paulo anuncia a Boa Nova do Cristo Crucificado-Ressuscitado como o centro da vida de todos. No entanto, o ponto crucial de Gl 3 é a questão da lei e da fé. Paulo repreende os cristãos por terem começado no “Espírito” e regredido na “carne’.

O “apóstolo dos gentios” (Rm 11,13; 1Tm 2,7) afirma que como Abraão, todos, sem distinção, são justificados pela fé em Jesus Cristo (Gl 3). A afirmação da Carta é que foi pela promessa (Gn 15,6) e não pela lei que Abraão foi agraciado, enquanto a promessa emana de Deus sem a necessidade de mediadores, a lei teve a mediação de Moisés, vindo bem depois (Gl 3,17). Mazzarolo sintetiza num infográfico a estrutura teológica da perícope:

Tabela 1

Nota. Adaptado de “Carta de Paulo aos Gálatas; Da libertação da lei à filiação em Jesus Cristo” (p. 116), por I. Mazzarrollo, 2013.

Na perícope de Gl 3,15-22, a lei é comparada a um “pedagogo”, ou seja, a lei tinha o papel que o pedagogo tinha, isto é, preparatório e temporário até a chegada da fé em Cristo. Encontrando-se com o Mestre Jesus Cristo, o pedagogo, ou seja, “a lei” cumpriu sua missão.

Com a chegada do Cristo Salvador, o povo de Deus deixa de estar sujeito ao pedagogo. Paulo não obrigava a ninguém a deixar de observar a lei de Moisés, mas também não aceitava que aqueles que aderiam à fé em Cristo exigissem dos outros o cumprimento legalista dos preceitos, gerando assim discriminações e exclusões, como se ela fosse obrigatória e essencial para a salvação em Cristo Jesus, como uma conditio sine qua non (Gonzaga 2025b).

A salvação trazida por Jesus estava destinada a todos e o principal é a adesão integral a Ele. Em Cristo somos todos iguais, o restante: a observância rígida da lei, os preceitos e as normas que escravizavam passam a ser algo secundário e perde substancialmente o sentido.

Educados na pedagogia da fé, somos revestidos de Cristo e configurados a Ele configurados, nos tornando filhos de Deus (Gl 3,26-29); pelo batismo pertencemos a Cristo, somos descendentes de Abraão e herdeiros da promessa de Deus.

Tabela 2

Sinopse comparativa

Gl 3,26-291

1Cor 12,132

Rm 10,123

Cl 3,114

26 vós todos, porém, sois filhos de Deus pela fé em Cristo Jesus,

27 pois todos vós, que fostes batizados em Cristo,

13Pois somos todos batizados num só Espírito para ser um só corpo,

12 De sorte que

vos vestistes de Cristo.

28Não há judeu nem grego,

não há escravo nem livre, não há homem nem mulher;

pois todos vós sois um em Cristo Jesus.

judeus e gregos,

escravos e livres,

e todos bebemos de um só Espírito.

não há distinção entre judeu e grego,

pois ele é Senhor de todos, rico para todos os que o invocam.

11Aí não há mais grego e judeu, circunciso e incircunciso, bárbaro, cita, escravo, livre,

mas Cristo é tudo e todos.

29Porém, se vós sois de Cristo, então sois descendência de Abraão, herdeiros segundo a promessa

Nota. Adaptado de “Texto grego da NA28”, tradução e tabela dos autores.

A sinopse apresenta primeiramente a perícope de (Gl 3,26-29) pois é a mesma anterior a (1Cor 12,13); (Rm 10,12), e (Cl 3,11). Portanto, a interpretação das outras perícopes tem como base a Carta aos Gálatas, uma das Cartas do corpus paulinum. (Gonzaga, 2015, pp. 406–407; Gonzaga, 2016, pp. 41–60; Gonzaga, 2017, pp. 19–41).

Analisando a sinopse, podemos observar as antíteses: homem e mulher apenas na Carta aos Gálatas, já a antítese “não há judeu e grego” aparece em todas as quatro Cartas; as categorias “escravo e livre” aparecem em outras duas Cartas, além da Carta aos Gálatas, 1Coríntios e Colossenses como é possível conferir na sinopse acima.

O conceito de igualdade apresentado na tese “não há judeu e nem grego” comum às quatro perícopes da sinopse, foi sendo acolhido e assimilado entre os cristãos progressivamente. Provenientes de um ambiente helenístico-judeu-cristão, os termos acima expressam que os cristãos tinham rompido com as discriminações étnicas e isso teve reflexo diretamente no contexto religioso e cultural até os nossos dias.

“Não há escravo nem livre...” aparece em Gálatas, 1Coríntios e Colossenses, só não aparece em Romanos. Nas Cartas destinadas às comunidades da Galácia, Corinto e Colossos, Paulo apresenta incessantemente a ideia de liberdade, o que mostra que nas comunidades se firmava a ideologia da liberdade a partir do anúncio da Boa-nova.

“Não há macho (homem) e fêmea (mulher)”, a expressão concernente apenas à Carta aos Gálatas revela que em Cristo não há distinção de gênero, entre homem e mulher, todos são iguais em Deus, pelo batismo e filiação divina, por meio de Cristo Jesus. Ao longo da história, as mulheres foram muitos desprezadas em relação ao homem. Como não poderia ser diferente, as discriminações também fizeram parte do contexto religioso, como por exemplo, no Judaísmo da época de Paulo. Diante da leitura e análise destes textos paulinos, o que se percebe é que Paulo desenvolve uma reflexão acerca da igualdade de todos e entre todos, advinda do pertencimento a Jesus Cristo, por meio do batismo.

Além de Gálatas, nas passagens de Rm 10,12 e de 1Cor 12,13 se acentua fortemente o conceito de integração entre todos, sem distinções, formando assim o Corpo de Cristo. Isso indicar que no corpo de Cristo todos são iguais, sem distinção de sexo, raça ou cor.

O autor da Carta aos Gálatas: alguém profundamente e alcançado por Cristo

A análise das páginas da Carta aos Gálatas revela a singularidade de seu autor – Paulo, “o apóstolo dos gentios” (Rm 11,13; 1Tm 2,7) – não apenas enquanto figura teológica, mas como sujeito pleno de humanidade. Observa-se, no texto, um Paulo que não hesita em expressar sentimentos autênticos de surpresa, decepção, temor e até de indignação diante da postura vacilante dos gálatas, que se afastam do Evangelho por ele anunciado. A clareza de sua fala e a firmeza de suas exortações apontam para uma coerência existencial inabalável, em que a defesa apaixonada da verdade não exclui a sensibilidade diante de sua própria vulnerabilidade.

A Carta aos Gálatas revela seu autor como sendo um homem profundamente humano: espanta-se diante da apostasia dos gálatas, afastando-se do verdadeiro Evangelho (1,6), mostra-se decepcionado com eles e teme que seu trabalho entre eles tenha sido em vão (4,11), usa de clareza ao falar e a quem anuncia um outro evangelho não hesita em dirigir anátemas (1,9), prima-se pela coerência de vida (2,14), mostra-se rude e decidido no falar, não usa rodeios e vai logo ao assunto (2,11-14;3,1-3) etc, bem como revela um aspecto de sua vida pessoal: a enfermidade (4,13). Não obstante sua agudeza apaixonada contra seus opositores e contra os próprios gálatas sabe ser profundamente grato quando lhe é oportuno (4,14). (Gonzaga, Os conflitos na igreja primitiva entre judaizantes e gentios em Gl 2, 2025, p. 27).

A experiência pascal de Paulo, cristalizada em seu encontro transformador com Cristo ressuscitado, confere densidade à sua missão e imprime às suas palavras uma autoridade singular. Da conversão em Damasco deriva não apenas sua radical mudança de vida, mas também o enraizamento de uma espiritualidade encarnada, capaz de conjugar firmeza profética e ternura pastoral. Mesmo quando é rude, incisivo ou toma atitudes rígidas, observa-se uma dedicação apaixonada ao anúncio do Evangelho genuíno e à integridade da fé cristã, com sentimentos de ternura (Gonzaga, 2025, pp. 57-80). A recusa em admitir “outro evangelho” não advém de intolerância, mas de um zelo pela verdade recebida do próprio Cristo: Paulo sente-se guardião da Boa Nova e exige a mesma fidelidade de suas comunidades, sem abrir mão, porém, de gratidão e reconhecimento quando percebe acolhimento e generosidade em seus interlocutores.

Olhando para Paulo, assim poderíamos formular a pergunta fundamental: como acontece o encontro de um ser humano com Cristo? E em que consiste a relação que dele deriva? A resposta de Paulo pode ser compreendida em dois momentos. Em primeiro lugar, Paulo nos ajuda a compreender o valor absolutamente essencial e insubstituível da fé. Eis o que escreve na Carta aos Romanos: “Pois estamos convencidos de que é pela fé que o homem é justificado, independentemente das obras da Lei” (3,28). Assim também na Carta aos Gálatas: “O homem não é justificado pelas obras da Lei, mas unicamente pela fé em Jesus Cristo; por isso, também nós acreditamos em Cristo Jesus para sermos justificados pela fé em Cristo, e não pelas obras da Lei; porque, pelas obras da Lei, nenhuma criatura será justificada” (2,16) (Bento XVI, 2011, pp. 133–134).

Situamo-nos então diante de Paulo em toda a sua complexidade humana e espiritual: um apóstolo que, profundamente marcado pelo encontro com Cristo ressuscitado, deixa transparecer suas emoções, fraquezas e convicções inabaláveis. Sua postura diante da comunidade da Galácia – ora surpreso pela apostasia, ora decepcionado e temeroso pelo possível fracasso de seu trabalho apostólico – revela um líder sensível, vulnerável e intensamente comprometido com a causa de Cristo em favor da salvação de todos. Entretanto, ao mesmo tempo em que demonstra gratidão e reconhecimento diante do acolhimento recebido, Paulo não hesita em ser duro e direto quando se trata de preservar a integridade do Evangelho. Em sua argumentação, mantém uma firme coerência entre vida e mensagem, sendo exemplo de fidelidade à missão mesmo diante de adversidades pessoais, como a sua enfermidade.

O ser humano constrói-se e realiza-se como pessoa nas relações, não apesar das relações. Mas esta intersubjetividade deve ser buscada, construída e cuidada. A consciência sai de sua autorreferencialidade através de encontros humanos verdadeiros e, especialmente, através do encontro com o Deus de Jesus Cristo, uma Transcendência que não destrói o ser humano em sua humanidade, mas, ao contrário, leva-o para além de si mesmo, a ultrapassar-se: “Chegamos a ser plenamente humanos quando somos mais do que humanos, quando permitimos a Deus que nos conduza para além de nós mesmos, a fim de alcançarmos o nosso ser mais verdadeiro” (EG 8) (Pedrosa-Pádua, 2014, p. 136).

A intensidade existencial e espiritual de Paulo se fundamenta no evento decisivo de seu encontro com Cristo, que não apenas transformou radicalmente sua trajetória, mas também fundamentou a centralidade da fé em sua teologia. O próprio Paulo ensina que a relação autêntica com Cristo só pode ser compreendida plenamente à luz da fé, como dimensão essencial da justificação, acima de qualquer prática legalista. Citando suas palavras nas Cartas aos Romanos e aos Gálatas, a justificação se dá “pela fé em Jesus Cristo” e não pelas “obras da lei”. Assim, a humanidade de Paulo e sua experiência transformadora com Cristo entrelaçam-se e se traduzem em um ministério apostólico vigoroso, em que a autenticidade da vida, a paixão pelo Evangelho e a prioridade da fé ocupam posição central, oferecendo, assim, um paradigma perene para o discipulado cristão.

Nessa perspectiva, compreende-se que a transformação vivida por Paulo, fruto de seu encontro com Cristo, exemplifica de forma paradigmática o dinamismo relacional no qual o ser humano se realiza plenamente. Paulo, ao ser interpelado pela graça, é conduzido a uma autêntica superação de si mesmo, uma experiência em que a fé não apenas transcende a autorreferencialidade, mas inaugura uma nova existência marcada pela abertura ao Outro e à comunidade. Conforme afirma EG 8, o ser humano só atinge sua plena humanidade quando, mediante relações verdadeiras e, sobretudo, no encontro com o Deus de Jesus Cristo, permite-se ultrapassar os limites do eu fechado, caminhando para o “ser mais verdadeiro”.

A vida de Paulo comprova que é no acolhimento da transcendência – que não anula, mas plenifica a humanidade – que se encontra o fundamento de um discipulado maduro, capaz de atualização e abertura à alteridade. Assim, a centralidade da fé em Paulo e sua profunda humanidade revelam a dimensão essencialmente intersubjetiva e transcendente da existência cristã, na qual a identidade pessoal floresce, não apesar das relações, mais precisamente através delas, na comunhão com Cristo e com os irmãos.

A antropologia de Jesus e de Paulo

Pode-se afirmar que o mistério da encarnação do Verbo (Jo 1,14) constitui-se como a expressão máxima de uma antropologia teológica, na qual Deus, ao assumir a natureza humana, eleva-a à sua plenitude ontológica e existencial. Em Jesus Cristo, todas as realidades são “recapituladas” (anakephalaiosis), conforme sugere a tradição paulina (Ef 1,10), pois em cada ação, palavra e gesto do Cristo encarnado revela-se o rosto do Pai e se manifesta a verdadeira identidade do ser humano, criado imago Dei. Assim, a encarnação torna-se o paradigma definitivo, onde a proximidade com o Outro, vivida na radicalidade do amor, traduz a mais perfeita semelhança com Deus. Quanto mais profundamente nos configuramos com o mistério da humanidade plena de Jesus, na relação de alteridade com o próximo, tanto mais nos tornamos semelhantes Àquele que é a fonte de toda comunhão.

A missão terrena de Jesus se caracteriza por uma indiferença às distinções impostas pelas convenções humanas: tanto no grupo restrito dos Doze quanto no círculo ampliado dos setenta e dois (Lc 10,1-12), e ainda na acolhida às mulheres que partilhavam de seu ministério itinerante (Lc 8,1-3), evidencia-se, em Cristo, a inauguração de uma nova criação. Em sua pessoa, todas as coisas são reconciliadas e regeneradas, na medida em que Deus não faz acepção de pessoas (At 10,34; Gl 2,6), transcendendo as categorizações antropológicas e ontológicas. É este dinamismo inclusivo, fundado na antropologia cristã, que deve inspirar e orientar a práxis eclesial contemporânea: em Cristo, somos convidados ao relacionamento reconciliatório com Deus, com o próximo e com toda criação, a qual o Papa Francisco denominava de “casa comum”.

Inspirado pelo Espírito Santo, o apóstolo Paulo adota, como eixo central de seu ministério, o princípio escatológico da inclusão: “Deus não faz distinção de pessoas” (Gl 2,6); esse imperativo motiva sua práxis apostólica e fundamenta a lógica da igualdade radical e da alteridade reconciliada: “Não há judeu nem grego, não há escravo nem livre, não há homem nem mulher” (Gl 3,28). Tal axioma pode ser compreendido como a estrutura fundamental do kerygma paulino, no qual a pregação e a vida apostólica de Paulo orientam-se por uma genuína “antropologia da inclusão”, inspirada pelo exemplo do próprio Cristo, e jamais da exclusão.

Dessa forma, na Carta aos Gálatas, Paulo subverte e desconstrói os paradigmas sociais, culturais e religiosos que fundamentavam as divisões étnicas, sociais e de gênero em seu tempo. A alteridade, nessa perspectiva, não deve jamais ser motivo de exclusão ou marginalização, mas, pelo contrário, tornar-se princípio agregador, valorizando aquilo que é singular e próprio de cada pessoa na comunhão eclesial e social. Assim, a lógica inclusiva do Evangelho promove a unidade na diversidade e na pluralidade, revelando a vocação universal da humanidade ao Reino de Deus.

Como indica Mazzarolo: “Na pedagogia de Jesus, o um e o outro formam o Um: ‘Pai santo, guarda-os em teu nome que me deste, a fim de que eles sejam um como nós’ (cf. Jo 17,11). A alteridade é o reconhecimento da individualidade” (Mazzarolo, 2013a, pp. 117, 119). Em seus ensinamentos, Jesus mostra-nos que a fraternidade humana acontece quando cada qual considera o outro mais digno do que a si próprio.

O apóstolo Paulo, seguindo os passos de Jesus Cristo (Gl 2,20), tinha uma certeza de fé de que o Evangelho era a força que integrava todo o cosmos, não somente os seres humanos. Para Paulo, diante de Jesus Cristo, todos estão em igualdade, pois: “sois um só em Jesus Cristo” (Gl 3,28).

A lei: um pedagogo que conduz ao mestre

A salvação instaurada por Jesus Cristo possui um caráter universal, destinando-se a toda a humanidade sem distinções, sendo a adesão existencial e integral à sua pessoa o elemento fundante da nova identidade cristã. Em Cristo, todas as diferenças são relativizadas, pois nele se inaugura a comunhão radical e inclusiva dos filhos de Deus. Diante dessa realidade, a observância estrita da lei mosaica, bem como os preceitos e as normas que outrora constituíam elementos fundamentais de pertença e identidade religiosa, perdem sua centralidade e sentido último, uma vez que são superados pela plenitude da graça.

Sob a pedagogia da fé, o fiel é revestido de Cristo e configurado à sua imagem, sendo assim incorporado à filiação divina. Pelo sacramento do batismo (Gl 3,26-27), o cristão experimenta uma profunda transformação ontológica: torna-se membro do Corpo de Cristo, herdeiro das promessas feitas a Abraão e participante da nova e definitiva aliança estabelecida por Deus. Dessa forma, a pertença a Cristo, mediada pela fé e sacramentalizada no batismo, estabelece a verdadeira identidade do sujeito cristão enquanto herdeiro da promessa salvífica e partícipe pleno da comunhão eclesial, sem distinção diante de Deus (Gl 3,28-29).

Não pela lei, mas pela fé em Cristo, somos filhos de Deus

Pela fé em Cristo, todos os excluídos: gregos, escravos e mulheres (Gl 3,28), ou seja, todos, fazem parte da mesma família, sem ter de passar pela circuncisão ou pela observância da lei mosaica. No sacrifício de Cristo, todos são justificados, portanto, torna-se obsoleto o excesso de zelo na prática exterior da lei. Em Gl 3,6-29, pode-se sintetizar: “Vós sois a descendência prometida a Abraão” (v.7.29):

Segundo a escritura, a bênção de Abraão se estende a todas as nações, ao passo que a Lei conduz à maldição do transgressor (3,6-14); Raciocínio humano: a promessa feita a Abraão por Deus não pode ser anulada pela intervenção da Lei promulgada posteriormente (3,15-20); O querigma cristão: a fé nos torna filhos de Deus em Cristo, ao passo que a lei era apenas um pedagogo até Cristo (3,21-29) (Maurice, 1987, p. 128).

A verdadeira sabedoria: os gregos, a liberdade e a gnose

No contexto do mundo helênico, caracterizado pela permanente busca do saber filosófico e religioso, notadamente presente nas correntes gnósticas e especulativas, o apóstolo Paulo propõe uma inversão radical dos critérios tradicionais de sabedoria ao anunciar Cristo, e este crucificado (1Cor 1,23). Enquanto a cultura judaica demandava sinais e prodígios, e o pensamento grego se entregava à investigação racional e à gnose, Paulo proclama que a salvação e a verdadeira liberdade não são conquistas da sabedoria humana, mas fruto da fé em Jesus Cristo crucificado: “Enquanto os judeus pedem sinais, e os gregos procuram sabedoria, nós pregamos Cristo crucificado, escândalo para os judeus, loucura para os gregos, mas poder e sabedoria de Deus para os chamados, quer judeus, quer gregos” (1Cor 1,22-24). Assim, Paulo subverte os parâmetros do saber religioso e filosófico do seu tempo, apresentando a cruz como sinal paradoxal do poder e da sabedoria divina.

A cruz tem um primado fundamental na história da humanidade; ela representa o ponto focal da teologia de Paulo, porque dizer cruz significa dizer salvação como graça concedida a cada criatura. [...] O Crucifixo é sabedoria, porque manifesta verdadeiramente quem é Deus, ou seja, poder de amor que chega até à Cruz para salvar o homem. Deus serve-se de modos e de instrumentos que para nós, à primeira vista, parecem debilidade. O Crucifixo releva, por um lado, a debilidade do homem e, por outro, o verdadeiro poder de Deus, ou seja, a gratuidade do amor: precisamente esta total gratuidade do amor é a verdadeira sabedoria (Bento XVI, 2008).

Assim sendo, a adesão a Cristo crucificado torna-se, para Paulo, a via de acesso à autêntica sabedoria e ao conhecimento pleno da verdade. A cruz de Cristo resume e sintetiza toda a economia salvífica manifestada no Evangelho (Gl 6,12-14). Ser crucificado com Cristo, pelo sacramento do batismo, implica morrer com Ele para que, pela fé, participe-se de sua vida nova (Rm 6,7). Trata-se, portanto, de um conhecimento que ultrapassa o mero exercício teórico e especulativo, pois reveste o crente de uma nova existência em Cristo, conduzindo-o a uma sabedoria prático-existencial. Somente através desta união vital com Cristo, pela experiência da cruz e do batismo, atinge-se a verdadeira sabedoria, capaz de discernir a vontade de Deus e viver plenamente a liberdade do Evangelho.

Igualdade e alteridade: em Cristo não há diferenças

A Carta aos Gálatas evidencia que, em Jesus Cristo, a diversidade humana é assumida e reconciliada, de modo que todos, independentemente de sua origem étnica, social ou cultural, tornam-se partícipes da plena filiação divina e membros da única família de Deus. Tal unidade em Cristo não elimina as diferenças, mas as transfigura e lhes concede novo significado no âmbito da comunhão eclesial; assim, ao proclamar a igualdade radical dos que estão “em Cristo” (Gl 3,28), Paulo propõe a superação de hierarquias e exclusões, reafirmando a diversidade como riqueza integrada à unidade da nova humanidade, valorizando a todos em sua pluralidade.

Vimos que em Cristo pertencemos a Deus uns aos outros, em Cristo também pertencemos a Abraão. Assumimos o nosso lugar na nobre sucessão histórica da fé [...] já não nos sentimos mais perdidos e desgarrados, sem nenhum significado na história, ou como pedacinhos de destroços sem valor à deriva sobre as ondas do tempo. Pelo contrário, encontramos o nosso lugar no desenrolar do propósito divino (Stott, 2000, p. 93).

Portanto, declarar que Cristo aboliu as diferenças não significa negar sua existência, mas indicar que, à luz do evento pascal, elas se tornam realidades secundárias diante da primazia da comunhão instaurada na fé. Persistem, contudo, desafios e barreiras históricas à plena realização da unidade cristã, exigindo um comprometimento ético que se traduza em gestos e atitudes conformes ao Evangelho. Neste prisma, a promessa feita a Abraão encontra em Cristo sua consumação definitiva, abrangendo todos os chamados à herança da bênção e à vivência do Reino de Deus, conforme atesta o próprio testemunho paulino.

A mensagem central que emerge da teologia paulina é a superação de toda distinção e discriminação de gênero, condição social ou etnia diante da nova identidade conferida em Cristo, pelo batismo. Revestidos de Cristo pelo batismo, todos participam de uma única realidade ontológica, tornando-se verdadeiramente irmãos e irmãs, livres de qualquer discriminação ou preconceito, e ingressando na liberdade autêntica própria dos filhos e filhas de Deus. Assim, a comunhão cristã funda-se não em prerrogativas socioculturais, mas na participação na descendência espiritual de Abraão. Em Cristo, todos são feitos herdeiros da promessa, cumprindo-se nele a definitiva inclusão de todos os povos no horizonte salvífico inaugurado pelo Deus da Aliança

Escravidão, liberdade e igualdade social

Um dos eixos teológicos que atravessa toda a Carta aos Gálatas é o tema da liberdade cristã: “foi para a liberdade que Cristo nos libertou” (Gl 5,1) (Gonzaga & Strona, 2023, pp. 14–46; Gonzaga & Schuster, 2023, pp. 1–12). Para Paulo, a liberdade não se configura como um privilégio acessório, constitui um elemento essencial da existência cristã, pois é decorrente da igual dignidade de todos os redimidos em Cristo, fundamento último da nova humanidade. A liberdade, nesse horizonte, é corolário da filiação divina e expressão da superação de toda forma de escravidão, exclusão ou subjugação, em vista da plena comunhão na família de Deus.

A experiência histórica da escravidão, profundamente arraigada no tecido social do Império Romano, e já presente em períodos anteriores, é tematizada à luz da revelação veterotestamentária. O clamor do povo de Israel, escravizado no Egito, ecoa em Ex 3,7-8: “Disse ainda o Senhor: Certamente, vi a aflição do meu povo, que está no Egito, e ouvi o seu clamor por causa dos seus exatores. Conheço-lhe o sofrimento; por isso, desci a fim de livrá-lo da mão dos egípcios e para fazê-lo subir daquela terra a uma terra boa e ampla, terra que mana leite e mel; o lugar do cananeu, do heteu, do amorreu, do ferezeu, do heveu e do jebuseu”. O Deus da Aliança, ao manifestar-se como Libertador, revela que a escravidão jamais pertenceu ao seu desígnio original para a humanidade.

No contexto escravocrata do mundo romano, o escravo era privado de sua liberdade e reduzido à condição de propriedade alheia, sustentando os pilares econômicos e sociais daquele sistema. À luz da revelação cristã, contudo, a libertação não se restringe à esfera sociopolítica, mas adquire uma dimensão ontológica e escatológica: pela graça de Cristo, cada ser humano é chamado a abandonar toda forma de servidão e a participar da liberdade filial própria dos filhos e filhas de Deus, plenificando assim o projeto divino acerca da dignidade humana.

Lohse, fazendo memória da cultura escravagista, ao contextualizar o cenário épico sociopolítico-eclesial em que se dá a Carta aos Gálatas, afirma que:

O preço de um escravo era baixo. Por isso, as pessoas ricas podiam ter centenas de escravos trabalhando em seus latifúndios, em suas oficinas ou em pontos de carga e descarga de mercadoria. Quem quisesse ser admirado, deveria possuir ao menos uma dúzia de escravos. O contingente de escravos crescia bastante por causa das conquistas, e continuava a aumentar depois pela procriação, pois os filhos de escravos eram considerados escravos. (2000, p. 201)

No contexto histórico do apóstolo Paulo, a sociedade romana era marcada por múltiplas categorias de escravos, que desempenhavam funções em setores diversos – desde propriedades agrícolas, minas e pedreiras, até o serviço público nas cidades e no Império.

Os escravos eram privados de sua dignidade e tratados como objetos ou mercadorias, sujeitos ao arbítrio absoluto de seus proprietários, numa institucionalização da desumanização. Além disso, a escravidão por dívidas contribuía para ampliar essa triste realidade, convertendo pessoas livres em servos caso não conseguissem quitar seus débitos.

Na região da Galácia, a presença militar romana agravava ainda mais o cenário de opressão, tornando o comércio de escravos uma prática cotidiana e cruel. Sensível a esta conjuntura, Paulo recorre, na Carta aos Gálatas, às imagens de liberdade e escravidão para anunciar o Evangelho como proposta de superação estrutural das desigualdades e exclusões.

A proclamação da Boa Nova faz-se, assim, no seio de uma sociedade polarizada entre senhores e escravos, na qual a segregação e a disparidade perpassam até mesmo a vida comunitária cristã, como se evidencia em 1Cor 11,17-34 e em 2Cor 8,13-14. Paulo denuncia o contratestemunho daqueles que, gozando de abundância, perpetuavam a exclusão dos mais pobres, e afirma peremptoriamente: “para que haja igualdade, suprindo a vossa abundância, no presente, a falta daqueles, de modo que a abundância daqueles venha a suprir a vossa falta, e, assim, haja igualdade” (2Cor 8,14).

A novidade do Evangelho consiste na plena comunhão em Cristo, na qual caem por terra todas as distinções sociais: “não há judeu nem grego, não há escravo nem livre, não há homem nem mulher” (Gl 3,28; 1Cor 12,13). Para Paulo, essa igualdade radical não se projeta apenas para o futuro escatológico, mas deve ser concretizada já no presente da vida comunitária. A estrutura de dominação, sobretudo a relação senhor-escravo, é apresentada como incompatível com a fé cristã e deve ser superada, a fim de instaurar uma nova sociedade, reconciliada em Cristo, na liberdade e na fraternidade dos filhos e filhas de Deus.

Judeu ou grego: a igualdade cultural

O Senhor, no horizonte da história da salvação, elegeu Abraão e sua descendência, constituindo o povo de Israel como destinatário privilegiado de Sua revelação. No entanto, a eleição abraâmica possui, desde o início, uma dimensão universal: a promessa feita a Abraão visava a que “em ti serão benditas todas as famílias da terra” (Gn 12,3), indicando que o desígnio salvífico de Deus transcende fronteiras étnicas e culturais, orientando-se para a inclusão de toda a humanidade.

A escolha de Israel é, portanto, manifestação do amor gratuito de Deus e início da reunião de toda a humanidade em torno de seu desígnio redentor. Como sintetiza o Catecismo da Igreja Católica (nos parágrafos 762–763):

A escolha de Israel manifesta o amor gratuito de Deus; esta eleição é o início da reunião do povo de Deus. Deus elege Israel para revelar-se aos homens e preparar a vinda do Messias, esperança de ‘todas as nações’. [...] O povo messiânico tem por cabeça Jesus Cristo, ‘o Ungido, o Messias’, pois ‘do seu próprio corpo’ nasce o povo de Deus. A vocação universal do povo de Deus adquire, pois, a partir de agora, um novo sentido: ‘Para formar um só corpo’ (Catecismo da Igreja Católica, 2020, pp. 191–192)

Para o apóstolo Paulo, essa distinção fundamental – entre o povo da aliança e as nações, entre “judeu e grego” (Gl 3,28) – adquire novo significado à luz do evento cristológico. Com a vinda de Cristo, não se trata simplesmente de anular a escolha particular de Israel, mas de levá-la à sua plenitude escatológica: em Cristo, as fronteiras que segregam são superadas, uma vez que todas as nações, raças e culturas encontram acolhida e igualdade diante de Deus. Em Cristo, a humanidade redescobre sua unidade originária, chamada a participar na busca e na comunhão com o Deus verdadeiro, que, em sua iniciativa gratuita de amor, antecede e ultrapassa toda distinção de classe, gênero ou nacionalidade, acolhendo todos como filhos e herdeiros da promessa.

Homem ou mulher: a igualdade de gênero

Ao considerar o contexto sociocultural no qual Paulo redige a Carta aos Gálatas, torna-se evidente sua afirmação da dignidade e igualdade de gênero. Na sociedade da Antiguidade, e particularmente no interior do Judaísmo, as mulheres eram frequentemente relegadas a uma condição de marginalização, experimentando desprezo, abuso e exploração. No entanto, ao proclamar em sua Carta aos Gálatas a invariabilidade da igualdade em Cristo, Paulo convoca a comunidade a superar toda discriminação, afirmando que, no âmbito da fé e da vida eclesial, homens e mulheres partilham igualmente de direitos e deveres, em plena reciprocidade ontológica e eclesial. Por meio dessa exortação, Paulo antecipa, no horizonte do Reino inaugurado em Cristo, a plena valorização da pessoa humana independentemente de seu gênero. Segundo Ferreira, existem três possibilidades plausíveis para Paulo manter a forma acima:

A primeira possibilidade é que a afirmação “não há homem e mulher” seja reflexo do local onde Paulo escrevera a epístola. Ele estaria em Éfeso ou em Corinto. Lá, as comunidades empolgadas pelo entusiasmo cristão viam que essa nova religião do Ressuscitado seria o meio eficaz para acabar com todos os tipos de segregações e desigualdades sociais, raciais ou de gênero. Nesta possibilidade, líderes (mulheres) cristãs começavam a despontar e, ao constatar que nas celebrações batismais se cantavam ou proclamavam que “todos vós sois um só em Cristo Jesus” e que “todos vós sois filhos de Deus”, Paulo, com sensibilidade pastoral, teria acolhido esse ideal feminino.

A segunda possibilidade é que a questão de gênero feminino-masculino tenha chamado a atenção de Paulo na comunidade da Galácia, onde ele estivera, talvez por duas vezes (4,13). A primeira experiência com os gálatas tinha sido edificante. Os grupos da região mostraram-se maduros, afetivamente, e de uma solidariedade cristã indescritível (4,12-20).

Na ausência do apóstolo, apareceram na comunidade alguns “missionários judeu-cristãos” proclamando o evangelho mesclado com a “pastoral” da lei e da circuncisão. Isto criou tanta confusão que, da Galácia, alguns mandaram notícias a Paulo narrando os conflitos que estavam acontecendo. As notícias pediam orientações ao apóstolo. Se as orientações dos “missionários judeu-cristãos”, giravam em torno da circuncisão, isto deve ter afetado as mulheres.

Possivelmente, uma das orientações que pediram ao apóstolo era sobre a segregação “de gênero” que estava acontecendo nas comunidades da Galácia, após a vinda dos judeu-cristãos. O autor, que usou um exemplo do ambiente feminino (4,19), diz com franqueza que, a partir de Cristo Jesus, “não há macho e fêmea”. Se as mulheres estavam num momento pastoral constrangedor na Galácia, agora elas tinham o conforto do apóstolo.

A terceira possibilidade é o surgimento nas comunidades anteriores a Paulo ou contemporâneas dele, em outros cristianismos originários. Independentemente do apóstolo. Toda a perícope de Gálatas 3,26-28 teria sido elaborada para as liturgias batismais. O contexto da perícope era, então, o momento da celebração do batismo. (2005, pp. 91–93)

Conforme assevera o autor, o texto em questão era possivelmente entoado como hino litúrgico ou proclamado pelo dirigente da celebração dirigido à assembleia de fiéis (“vós”). No seio das comunidades cristãs primitivas, marcadas pela expectativa escatológica de uma nova criação (Gl 6,15) e pelo anseio por uma liberdade radical e uma igualdade que transcendesse toda distinção, a unidade em Cristo constituía o princípio norteador da vida eclesial. Por esta razão, a fé em Cristo, sacramentalmente assumida pelo batismo, era profundamente integrada à experiência cotidiana e às dinâmicas familiares presentes nas comunidades. É neste contexto que se pode inferir a proeminência da presença feminina, cuja atuação nas lideranças eclesiais ia-se tornando cada vez mais significativa.

De modo análogo, na Carta aos Romanos, o apóstolo Paulo evidencia a participação ativa das mulheres na missão e no anúncio do evangelho, mencionando explicitamente diversos nomes femininos nas saudações finais de sua Carta. Tal fato revela uma compreensão antropológica sustentada pela unidade e igualdade em Cristo, fundamentando-se na práxis e exemplaridade da vida do próprio Jesus. Nas saudações paulinas, a nomeação e valorização das mulheres manifesta o reconhecimento de seu protagonismo na edificação e expansão das primeiras comunidades eclesiais, evidenciando, assim, a superação das barreiras tradicionais de gênero no contexto do cristianismo nascente. Diz o texto de Rm 16,1-6:

Recomendo-vos a nossa irmã Febe, que está servindo à igreja de Cencréia, para que a recebais no Senhor como convém aos santos e a ajudeis em tudo que de vós vier a precisar; porque tem sido protetora de muitos e de mim inclusive. Saudai Priscila e Áqüila, meus cooperadores em Cristo Jesus, os quais pela minha vida arriscaram a sua própria cabeça; e isto lhes agradeço, não somente eu, mas também todas as igrejas dos gentios; saudai igualmente a igreja que se reúne na casa deles. Saudai meu querido Epêneto, primícias da Ásia para Cristo. Saudai Maria, que muito trabalhou por vós.

Por quase todo o capítulo a lista de agradecimento e elogios às mulheres continuam, isso mostra que Paulo sempre valorizou o trabalho das mulheres no interior das comunidades cristãs. O testemunho das mulheres que contribuíram na missão evangelizadora paulina são diversos: Febe era servidora da igreja da Cencreia, possivelmente foi portadora da Carta de Paulo a Roma; Priscila juntamente com Áquila, seu esposo, acolheram Paulo quando ele foi a Corinto, segundo At 18,1-3, moravam e trabalhavam juntos na fabricação de tendas. Organizam a comunidade cristã de Éfeso (At 18,18-19), além de evangelizarem Apolo (At 18,24-28). Uma questão interessante é que Paulo sempre apresenta primeiramente em seus escritos o nome de Priscila, talvez ela fosse mais dedicada à evangelização do que o esposo.

Unidade na diversidade: em Cristo somos um

Ao afirmar-se que Cristo aboliu as diferenças, não se pretende sustentar a anulação ou extinção das distinções, mas reconhecer que, à luz do evento salvífico pascal, tais diferenciações assumem um caráter secundário diante da primazia da comunhão em Cristo. Persistem, contudo, obstáculos históricos e culturais que dificultam a efetivação plena da unidade, tanto no interior da comunidade eclesial quanto no âmbito mais amplo da sociedade. Por isso, torna-se imperativo que a unidade proclamada em Cristo seja continuamente cultivada e testemunhada em gestos concretos e atitudes cotidianas, de modo que a proposta do Reino de Deus se realize de maneira tangível no ser e agir da comunidade cristã.

Vimos que em Cristo pertencemos a Deus uns aos outros, em Cristo também pertencemos a Abraão. Assumimos o nosso lugar na nobre sucessão histórica da fé [...] já não nos sentimos mais perdidos e desgarrados, sem nenhum significado na história, ou como pedacinhos de destroços sem valor à deriva sobre as ondas do tempo. Pelo contrário, encontramos o nosso lugar no desenrolar do propósito divino (Stott, 2000, p. 93).

 A mensagem nuclear do texto paulino consiste em afirmar que nenhuma diferenciação de gênero, condição social ou pertencimento étnico constitui fator de separação entre os que estão em Cristo. Revestidos do próprio Cristo, tornamo-nos um único povo, marcado pela fraternidade e desprovido de qualquer distinção ou preconceito, participando plenamente da liberdade reservada aos filhos e filhas de Deus. Essa comunhão funda-se no fato de que, em Cristo, somos incorporados à descendência espiritual de Abraão e, por consequência, nos tornamos coerdeiros da promessa divina feita ao patriarca, realizando a inclusão universal no horizonte da fé.

A unidade é superior ao conflito – a herança da Evangelli Gaudium

O Papa Francisco, de saudosa memória, em sua Exortação Apostólica Evangelii Gaudium (n. 226-229), propõe um verdadeiro programa pastoral e missionário ao afirmar que “Cristo tudo unificou em Si: céu e terra, Deus e homem, tempo e eternidade, carne e espírito, pessoa e sociedade”. Nessa linha, o sucessor de Pedro insistia que “a unidade prevalece sobre o conflito”, delineando um horizonte teológico segundo o qual a comunhão, fundada em Cristo, ultrapassa e assume as tensões e diferenças do mundo contemporâneo.

No contexto de uma sociedade caracterizada pelo pluralismo religioso, cultural, étnico e intelectual, o cristianismo é chamado a testemunhar simultaneamente unidade e alteridade. O anúncio paulino em Gl 3,26-29 emerge, assim, como estímulo esperançoso e um imperativo ético para que as comunidades cristãs cultivem a igualdade e a comunhão fraterna no seio da diversidade. Viver a alteridade implica reconhecer e respeitar a dignidade e a identidade do outro, à semelhança de Cristo, que acolheu integralmente todas as pessoas em sua missão. Desse modo, a Igreja é interpelada a realizar sua vocação no tempo presente, dialogando com a novidade e com as surpresas do Espírito, construindo unidade na diferença.

Hoje, os desafios da unidade e da comunhão transcendem o âmbito estritamente humano, exigindo uma abertura à dimensão cósmica da criação. O magistério do Papa Francisco, especialmente por meio da Carta Encíclica Laudato Si’ (n. 92), convocou toda a Igreja a uma ecologia integral, sintetizando a vocação à fraternidade universal e ao cuidado com a “casa comum”. Este ensinamento, em consonância com a perspectiva paulina dirigida à comunidade da Galácia, manifesta que a comunhão sistêmica com todas as criaturas é horizonte intrínseco da esperança cristã e expressão concreta do amor reconciliador do Deus uno e trino:

[...] quando o coração está verdadeiramente aberto a uma comunhão universal, nada e ninguém fica excluído desta fraternidade [...] Tudo está relacionado, e todos nós, seres humanos, caminhamos juntos como irmãos e irmãs em uma peregrinação maravilhosa, entrelaçados pelo amor que Deus tem a cada uma das suas criaturas e que nos une também, com terna afeição, ao irmão sol, à irmã lua, ao irmão rio e à mãe terra (Francisco, 2015, n. 92).

É no outro que vivemos a relação com o Outro por excelência, que é o próprio Deus. No entanto, não se vive a alteridade no ad intra e nem no ad extra eclesial sem a experiência da fraternidade, na lógica do irmão (FT 101-105), como afirma Mazzarolo: “A alteridade é o reconhecimento da individualidade, mas esta não supre a comunidade, a colegialidade e a comunhão”(2013, p. 119).

Conclusão

Em um contexto de pluralidade, a comunidade cristã é convocada a trilhar itinerários que conduzam ao próprio caminho, que é Jesus Cristo, o qual recapitula e integra em Si toda a realidade. Deste modo, o discipulado cristão implica uma postura de constante engajamento, rejeitando toda indiferença frente aos múltiplos âmbitos socioculturais nos quais se faz necessária uma presença cristã efetiva e afetiva.

O testemunho do apóstolo Paulo, bem como de inúmeros outros ao longo da história bimilenar do cristianismo, evidencia essa missão de presença ativa. Torna-se, portanto, imperiosa a inserção das comunidades eclesiais nas “periferias existenciais”, nas quais Cristo continua a ser crucificado nas pessoas marginalizadas e excluídas. Um tal comprometimento constitui o cerne da identidade cristã em diálogo e ação transformadora junto à sociedade contemporânea.

Ao seguirmos os passos de Jesus Cristo, somos igualmente convidados a acolher o pluralismo e a diversidade presentes no tecido social, como indica Paulo em Gl 3,26-29, sem fazer distinção entre as pessoas. As comunidades cristãs são chamadas a serem espaços de hospitalidade e serviço alegre, tornando-se sinais proféticos de convivência e solidariedade. Por vezes, contudo, o fechar-se sobre si mesmo e a busca por segurança institucional podem inibir processos de renovação e abertura às demandas emergentes.

Não obstante, é fundamental cultivar a unidade – que não se confunde com uniformidade – como expressão da catolicidade eclesial. Desde as suas origens, o cristianismo caracteriza-se por uma pluralidade de expressões, o que constitui verdadeira riqueza jamais passível de ser suprimida por posturas exclusivistas ou refratárias às novas realidades.

O discipulado cristão, nesse sentido, requer um anúncio do Evangelho em sua integralidade, superando dicotomias ou fragmentações indevidas. Não é possível adotar uma mentalidade sectária ao professar a fé no Cristo, que é, por excelência, Aquele que unifica todas as coisas e todos os povos. Em Cristo, como indicou Paulo, não há e não pode haver diferenças entre os filhos e filhas de Deus; pelo contrário, o batismo iguala a todos na filiação divina.

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  1. 1 Gl 3,26-29: 26 Πάντες γὰρ υἱοὶ θεοῦ ἐστε διὰ τῆς πίστεως ἐν Χριστῷ Ἰησοῦ· 27 ὅσοι γὰρ εἰς Χριστὸν ἐβαπτίσθητε, Χριστὸν ἐνεδύσασθε. 28 οὐκ ἔνι Ἰουδαῖος οὐδὲ Ἕλλην, οὐκ ἔνι δοῦλος οὐδὲ ἐλεύθερος, οὐκ ἔνι ἄρσεν καὶ θῆλυ· πάντες γὰρ ὑμεῖς εἷς ἐστε ἐν Χριστῷ Ἰησοῦ. 29 εἰ δὲ ὑμεῖς Χριστοῦ, ἄρα τοῦ Ἀβραὰμ σπέρμα ἐστέ, κατ’ ἐπαγγελίαν κληρονόμοι.

  2. 2 1Cor 12,13: καὶ γὰρ ἐν ἑνὶ πνεύματι ἡμεῖς πάντες εἰς ἓν σῶμα ἐβαπτίσθημεν, εἴτε Ἰουδαῖοι εἴτε Ἕλληνες εἴτε δοῦλοι εἴτε ἐλεύθεροι, καὶ πάντες ἓν πνεῦμα ἐποτίσθημεν.

  3. 3 Rm 10,12: οὐ γάρ ἐστιν διαστολὴ ουδαίου τε καὶ Ἕλληνος, ὁ γὰρ αὐτὸς κύριος πάντων, πλουτῶν εἰς πάντας τοὺς ἐπικαλουμένους αὐτόν·

  4. 4 Cl 3,11: ὅπου οὐκ ἔνι Ἕλλην καὶ Ἰουδαῖος, περιτομὴ καὶ ἀκροβυστία, βάρβαρος, Σκύθης, δοῦλος, ἐλεύθερος, ἀλλὰ [τὰ] πάντα καὶ ἐν πᾶσιν Χριστός.