Resumo
A atual e inegável crise socioambiental vem, gradativamente, ameaçando o frágil equilíbrio ecológico planetário e provocando maiores e graves danos climáticos extremos que assolam e devastam a Casa Comum. O presente artigo, à luz de Lc 12,6, que integra a perícope de Lc 12,4-7, única citação simultaneamente presente na Laudato Si’, na Querida Amazônia e na Laudate Deum, aborda a urgente reflexão do cuidado com a Casa Comum e a necessária e fundamental conversão ecológica em vista de uma Ecologia Integral, proposta pelo Papa Francisco. No arco temporal de 2015 a 2023, período que compreende o lançamento dos três documentos citados, podendo ser incluindo ainda outro, a Fratelli Tutti, o magistério do Papa Francisco promoveu o importante diálogo entre a política internacional, a ciência e o meio ambiente, assim como debateu o papel primordial do cristianismo e sua práxis para o enfrentamento da atual crise climática. Apesar de seu breve pontificado, o Papa Francisco se tornou uma voz profética para os tempos atuais e não mediu esforços para combater o paradigma tecnocrático. Para esta análise, o presente artigo oferece o texto bíblico em sua língua original e tradução pessoal, notas de crítica textual, bem como comentários bíblico-teológicos aos quatro versículos da perícope de Lc 12,4-7. Em seguida, apresenta-se alguns pontos dos contextos históricos e tópicos estruturais dos documentos Laudato Si’, Querida Amazônia e Laudate Deum. Conclui-se a favor das proposições formuladas pelo querido Papa Francisco, articulando um outro modelo econômico possível e seu sonho eclesial, com ênfase no modelo sinodal.
Palavras-chave: Papa Francisco, Crise socioambiental, Laudato Si’, Querida Amazônia, Laudate Deum, Fratelli Tutti.
Abstract
The current and undeniable socio-environmental crisis is gradually threatening the fragile ecological balance of the planet and causing increasingly severe extreme weather events that ravage and devastate our common home. This article, in light of Lk 12:6, which is part of the pericope of Lk 12:4-7, the only passage cited simultaneously in Laudato Si’, Querida Amazonia, and Laudate Deum, addresses the urgent need to reflect on care for our common home and the necessary and fundamental ecological conversion required for an Integral Ecology, as proposed by Pope Francis. Between 2015 and 2023, a period encompassing the release of the three aforementioned documents, to which another, Fratelli Tutti, may be added, Pope Francis’s magisterium fostered an important dialogue between international politics, science, and the environment, while also addressing the pivotal role of Christianity and its praxis in confronting the current climate crisis. Despite his brief pontificate, Pope Francis has become a prophetic voice for our times and has spared no effort in combating the technocratic paradigm. For this analysis, this article presents the biblical text in its original language and a personal translation, along with textual criticism notes and biblical-theological commentary on the four verses of the pericope from Lk 12:4-7. It then presents some points regarding the historical contexts and structural themes of the documents Laudato Si’, Querida Amazonia, and Laudate Deum. The conclusion supports the propositions formulated by Pope Francis, articulating another possible economic model and his ecclesial vision, with an emphasis on the synodal model.
Keywords: Pope Francis, Socio-environmental crisis, Laudato Si’, Querida Amazonia, Laudate Deum, Fratelli Tutti.
Resumen
La actual e innegable crisis socioambiental está amenazando, poco a poco, el frágil equilibrio ecológico del planeta y provocando daños climáticos extremos cada vez más graves que asolan y devastan la casa común. El presente artículo, a la luz de Lc 12,6, que forma parte de la perícopa de Lc 12,4-7, única cita presente simultáneamente en Laudato Si’, en Querida Amazonia y en Laudate Deum, aborda la urgente reflexión sobre el cuidado de la casa común y la necesaria y fundamental conversión ecológica con vistas a una Ecología Integral, propuesta por el papa Francisco. En el arco temporal de 2015 a 2023, período que abarca la publicación de los tres documentos citados, a los que se podría añadir otro más, Fratelli Tutti, el magisterio del papa Francisco ha promovido el importante diálogo entre la política internacional, la ciencia y el medio ambiente, al tiempo que ha debatido el papel primordial del cristianismo y su praxis para hacer frente a la actual crisis climática. A pesar de su breve pontificado, el papa Francisco se ha convertido en una voz profética para los tiempos actuales y no ha escatimado esfuerzos para combatir el paradigma tecnocrático. Para este análisis, el presente artículo ofrece el texto bíblico en su lengua original y una traducción personal, notas de crítica textual, así como comentarios bíblico-teológicos sobre los cuatro versículos de la perícopa de Lc 12,4-7. A continuación, se presentan algunos aspectos de los contextos históricos y temas estructurales de los documentos Laudato Si’, Querida Amazonia y Laudate Deum. Se concluye a favor de las propuestas formuladas por el querido papa Francisco, articulando otro modelo económico posible y su sueño eclesial, con énfasis en el modelo sinodal.
Palabras clave: Papa Francisco, crisis socioambiental, Laudato Si’, Querida Amazonia, Laudate Deum, Fratelli Tutti.
Introdução
O Evangelho de Lucas é a terceira obra na ordem canônica presente na segunda parte das Sagradas Escrituras. “Os manuscritos primitivos do terceiro evangelho são intitulados ‘Segundo Lucas’ (do grego Kata Loukan)”1. Integrando o corpus dos Evangelhos (Mateus, Marcos, Lucas e João) e em conjunto com o livro dos Atos dos Apóstolos, formam assim o quinteto inicial do Novo Testamento2, formando um dos vários “pentateucos” dentro das Escrituras3. Lucas ocupa um importante lugar na história da formação do cânon dos Evangelhos, em virtude de ter sido o único Evangelho escolhido por Marcião de Sinope (Μαρκίων Σινώπης: ce. 85-160 d.C.)4, por volta do ano 150 d.C., para compor a lista – reduzida e expurgada – de seu cânon mutilado5. A reação imediata dos Padres da Igreja provocou não só rejeição à lista de Marcião, e, posteriormente sua excomunhão, como também fortaleceu os critérios para o discernimento e a aceitação dos livros no cânon bíblico6.
O autor de Lucas logo se destaca pelo início do seu Evangelho. Ele é o único entre os Sinóticos a apresentar uma introdução, de acordo com o costume literário da época, expondo seu pensamento e reflexão que “o nortearam na elaboração do seu trabalho”7. Com uma habilidosa escrita e de um conhecimento refinado do grego, seu prólogo indica a razão, o destinatário e as fontes utilizadas para alcançar seu objetivo. Considerado um “gênio literário de primeira grandeza”8, o escritor oferece, assim, aos seus leitores, uma obra robusta e de profunda teologia.
1. Segmentação e tradução de Lc 12,4-7
O texto de Lc 12,4-7 apresenta um importante diálogo entre Jesus e seus discípulos. No contexto da viagem em direção a Jerusalém9 (Lc 9,51), ao ser convidado para o almoço na casa de um fariseu (Lc 11,57), o mestre e seus discípulos veem-se cercados por “milhares de pessoas” (Lc 12,1). A atmosfera é marcada pela hostilidade dos escribas e fariseus que de forma persecutória infligem inúmeros interrogatórios com intuito de colocá-lo em alguma cilada (Lc 11,53). Impossibilitado de manter uma conversa mais reservada, ali mesmo, Jesus inicia um profundo ensinamento com o objetivo de levar os discípulos a manterem a confiança e a fidelidade em suas palavras. Mesmo diante das perseguições e ameaças que poderiam custar suas próprias vidas, os discípulos jamais devem duvidar do amor e da providência divina.
| Texto grego | Versículo | Tradução |
|---|---|---|
| Λέγω δὲ ὑμῖν τοῖς φίλοις μου· | v.4a | Digo-vos, porém, meus10 amigos: |
| μὴ φοβηθῆτε ἀπὸ τῶν ἀποκτεννόντων τὸ σῶμα | v.4b | Não temais os que matam o corpo |
| καὶ μετὰ ταῦτα μὴ ἐχόντων περισσότερόν τι ποιῆσαι. | v.4c | e depois dessas coisas não podem fazer algo a mais. |
| ὑποδείξω δὲ ὑμῖν | v.5a | Mostrarei, porém, a vós |
| τίνα φοβηθῆτε· | v.5b | a quem deveis temer: |
| φοβήθητε | v.5c | Temei |
| τὸν μετὰ τὸ ἀποκτεῖναι ἔχοντα ἐξουσίαν | v.5d | aquele que, depois de matar, tem o poder |
| ἐμβαλεῖν εἰς τὴν γέενναν· | v.5e | de lançar para a Geena; |
| ναί, λέγω ὑμῖν, | v.5f | sim, digo-vos, |
| τοῦτον φοβήθητε. | v.5g | a este temei. |
| οὐχὶ πέντε στρουθία πωλοῦνται ἀσσαρίων δύο; | v.6a | Não se vendem cinco pardais por duas moedas11? |
| καὶ ἓν ἐξ αὐτῶν οὐκ ἔστιν ἐπιλελησμένον ἐνώπιον τοῦ θεοῦ. | v.6b | E nenhum deles é esquecido diante de Deus. |
| ἀλλὰ καὶ αἱ τρίχες τῆς κεφαλῆς ὑμῶν πᾶσαι ἠρίθμηνται. | v.7a | Mas também os fios de cabelo de vossas cabeças todos são contados. |
| μὴ φοβεῖσθε· | v.7b | Não temais: |
| πολλῶν στρουθίων διαφέρετε. | v.7c | valeis mais do que muitos pardais. |
Fonte: texto grego da NA28; tradução e tabela dos autores.12
2. Análise de Lc 12,4-7
Lc 12 é marcado por uma série de ensinamentos de Jesus13, voltados para seus seguidores, alternando o discurso entre seus discípulos e a multidão ali presente. Posicionada logo após uma série de controvérsias com os fariseus – que ocupa grande parte de Lc 11 – esta seção apresenta inicialmente o tema da hipocrisia14 e da inevitabilidade das perseguições, para a qual seus discípulos devem estar preparados (vv.1-12). Vale a pena chamar atenção para o tema da hipocrisia, pois este emoldura todo o capítulo de Lc 12, estando presente em seu início e em seu término.
Logo após alertar os discípulos sobre as perseguições futuras, a orientação do mestre de Nazaré recai sobre o perigo da avareza e do acúmulo de bens. A advertência é reforçada pela parábola do rico ganancioso (Lc 12,13-21). Em seguida, Jesus aborda o tema da confiança e plena esperança na providência divina, presente também no início do capítulo, explicitamente enfatizado com o apelo final de “não temais, pequenino rebanho” (Lc 12,22-32). Os versículos seguintes (Lc 12,33-59), em quase toda sua totalidade, tratam do tema escatológico, convidando-os para a vigilância e preparando-os para o “momento decisivo que certamente está à espera deles”15.
A perícope escolhida (Lc 12,4-7) está bem demarcada dentro da seção de Lc 12,1-59. O v.4, que se inicia com o verbo “λέγω/dizer”, conjugado na primeira pessoa do indicativo (“eu digo”), seguido da partícula “δὲ/mas, porém”, uma conjunção coordenativa16, neste caso, com sentido adversativo, indica o início de um novo tema a ser tratado. A clareza do contexto se evidencia em razão da leitura dos versículos anteriores (vv.1- 3), cujo tema explícito trata da denúncia da hipocrisia dos fariseus. O uso da partícula “δὲ/mas, porém”, com valor adversativo, em conjunto com o verbo “λέγω/dizer”, permite traduzir como: “Digo-vos, porém ...”, indicando a linha de raciocínio do autor lucano e a mudança dentro da seção. A sequência temática a ser tratada pelos vv.4- 7 diz respeito ao tema do temor: “μὴ φοβεῖσθε/não temais”. O uso enfático do verbo “φοβέομαι/temer”, usado cinco vezes ao longo da perícope, confirma a predominância do tema. O v.7, que encerra essa perícope, em sua formação, carrega as palavras do mesmo campo semântico como: “μὴ φοβεῖσθε/não temais”; “στρουθίων/pardais”. O v.8, que se inicia com esta mesma formação, “λέγω δὲ/digo-vos, porém...”, marca um novo tema, chamando atenção para as consequências da confissão/negação de Jesus diante dos homens.
v.4: “Λέγω δὲ ὑμῖν τοῖς φίλοις μου, μὴ φοβηθῆτε ἀπὸ τῶν ἀποκτεινόντων τὸ σῶμα καὶ μετὰ ταῦτα μὴ ἐχόντων περισσότερόν τι ποιῆσαι/Digo-vos, porém, meus amigos: Não temais os que matam o corpo e depois dessas coisas não podem fazer algo a mais”. O autor lucano é o único, entre os escritores sinóticos, a usar a expressão consoladora17 “τοῖς φίλοις μου/meus amigos”. O ineditismo no uso desse termo tem razão e importância narrativas, pois marca a transição da temática que agora Jesus irá tratar com os seus discípulos. Por envolver uma importante instrução, é necessário estabelecer plena atenção por meio de uma expressão que transmita mais intimidade e proximidade. O assunto a ser refletido, a respeito de quem se deve ou não temer, implica no impactante destino da morte. O que será pior do que ser morto? O sentimento de temor é apresentado de forma explicita e radical, sem rodeios e de forma assertiva. Jesus, ciente do valor desse ensinamento, estabelece então com os discípulos um vínculo nunca antes explicitado. Segundo Pérez Millos, isso deixa clara sua intenção:
Nesta ocasião, a qualificação de amigos tem a ver com o que Ele está fazendo por eles e o cuidado que lhes presta. Por isso, tendo Jesus como amigo, os homens não podem atemorizá-los. As perseguições e dificuldades estavam próximas a começar para eles. Os líderes das nações iriam persegui-los. Os religiosos os expulsariam das sinagogas. Muitos morreriam por sua fidelidade. Mas, em todos os momentos, são os amigos de Jesus18.
Após estabelecer o vínculo de intimidade e proximidade, Jesus utiliza, na voz imperativa, o verbo “φοβέομαι/temer”. Repetido cinco vezes ao longo da perícope e emoldurando-a, isto é, estando presente em seu início e em seu fim. O verbo soa como um alerta e declara o estado de confiança e plena fidelidade que os seus seguidores devem devotar ao mestre. Mesmo as graves circunstâncias, de perseguições e condenações, que possam ameaçar a integridade física do discípulo e ainda que a violência extrema chegue a custar a própria vida, a palavra do mestre vem em amparo de seus amigos. Assim, a ordem de não temer deve ser verdadeiramente assumida e assimilada. Consciente que sua existência não se reduz à realidade material e que o fim da vida não é resultante da morte terrena, o discípulo escuta atentamente a voz do mestre, que esclarece: “μὴ ἐχόντων περισσότερόν τι ποιῆσαι/não podem fazer algo a mais”. O propósito desta impactante sentença é prepará-los para o verdadeiro temor.
v.5: “ὑποδείξω δὲ ὑμῖν τίνα φοβηθῆτε· φοβήθητε τὸν μετὰ τὸ ἀποκτεῖναι ἔχοντα ἐξουσίαν ἐμβαλεῖν εἰς τὴν γέενναν. ναὶ λέγω ὑμῖν, τοῦτον φοβήθητε/Mostrarei, porém, a vós a quem deveis temer: Temei aquele que, depois de matar, tem o poder de lançar para a Geena, sim, digo-vos, a este temei.” Ao continuar o diálogo, reforçando seu discurso ao repetir o verbo “φοβέομαι/temer” por três vezes, o mestre de Nazaré
apresenta quem de fato deve ser temido. Fica evidente que não se trata de alguém ou qualquer outra forma de representação do poder terreno ou de algum dos seus governantes, nem de algum adversário. Pois agora, além de matar o corpo, o temor autêntico recai sobre aquele que tem a “capacidade, autoridade e poder”19 de, após a morte, lançar na Geena. Essa seria a realidade que deveria realmente atemorizar seus ouvintes. A morte temporal e física em nada se compara ao possível destino eterno, o qual deveria ser pautado a todo custo por meio da fidelidade a Cristo. De acordo com Crimella, O primeiro ‘medo’ estigmatizado é o daqueles que matam (v.4); Jesus limita o poder dos assassinos de eliminar a vida biológica. Em seguida, a apresentação de alguém com um poder muito maior (v.5), ou seja, o de infligir a morte eterna, é deliberadamente discreta pedindo, a cooperação tanto dos ouvintes quanto dos leitores. No entanto, Jesus não específica quem é essa figura misteriosa; a ênfase recai apenas na necessidade de temer: o primeiro ‘temor’ deve ser substituído por um segundo20.
A Geena21 “é o ‘vale do Hinom’ (ge-hinnon), onde antigamente se sacrificavam vidas humanas a Moloc e onde Israel queimava as imundices”22. Geograficamente situado ao sul da cidade de Jerusalém, fazendo uma curva a oeste23, essa região é citada várias vezes nas Sagradas Escrituras (2Cr 28,3; 33, 6; Lv 18,21; 1Rs 11,7). No tempo de Jesus, o vale era reconhecido pela sua condição de agregar todo tipo de lixo, vermes, detritos, restos de animais, entre outros24; por isso, estava continuamente com fogueiras acessas para consumirem a grande quantidade de resíduos. Conforme Edwards, O Geena era uma imagem vívida do inferno para a audiência de Jesus – muito próximo do templo, a distância do lançamento de uma pedra. Aquele que “tem poder para lançar no inferno” (v.5), à primeira vista pode parecer se referir a Satanás, mas se refere quase com certeza a Deus, pois na tradição escritural ‘aquele que tem poder para lançar no inferno é Deus’. Assim Deus, tem de ser temido (23,40; Sl 119, 120; Hb 10,31; Ap 14,7,10), ao passo que Satanás não tem de ser temido, mas resistido (Tg 4,7; 1Pe 5,9). A referência ao Geena atesta a autoridade suprema de Deus sobre a vida além do túmulo, que, em Apocalipse 2,11; 20,6,14; 21,8, é chamada de a ‘segunda morte’25.
Será que a intenção de Jesus era aterrorizar seus ouvintes e seus futuros seguidores? Seria o medo de ir para o inferno, o sentimento a ser cultivado em seus corações? Precipitadamente poderiam ser estes e outros os questionamentos a serem formulados caso a mensagem do mestre de Nazaré se encerrasse de forma abrupta nesse contexto.
Ainda mais, se o fim correspondesse de fato à última sentença do v.5: “ναὶ λέγω ὑμῖν, τοῦτον φοβήθητε/sim, digo-vos, a este temei.”
v.6: “οὐχὶ πέντε στρουθία πωλοῦνται ἀσσαρίων δύο; καὶ ἓν ἐξ αὐτῶν οὐκ ἔστιν ἐπιλελησμένον ἐνώπιον τοῦ θεοῦ/ Não se vendem cinco pardais por duas moedas? E nenhum deles é esquecido diante de Deus.” Jesus é o mestre que ensina através de parábolas e linguagem simples. Sua mensagem é carregada de símbolos e imagens que, de fato, aproximam seus ouvintes e atraem seus seguidores. Por isso sua intenção não é doutrinar pelo medo26 nem tampouco ensinar coagindo ou, pior, manipulando as emoções das multidões. Então, após essa dramática introdução, Jesus revela seu ensinamento. Segundo Crimella,
O ponto de virada ocorre com a nova declaração que oferece uma descrição explícita de Deus, enfatizando seu cuidado que ele tem com os pardais (v.6) e, em seguida, com os discípulos (v.7). Os dois exemplos revelam que Deus se importa com suas criaturas; e o medo dos perseguidores é vencido27.
Ao usar o exemplo dos pardais, Jesus recorda a importante literatura sapiencial que conservou, por meio de importantes passagens, a mensagem do grande amor e cuidado que Deus devota às suas criaturas (Sl 86,15; 103,27-30; 104,24-26; 136,25; 145,8-9; Jó 5,10-11; Pr 12,10); “Ele não é insensível nem mesmo com os ‘filhotes dos corvos que clamam a Ele’ (Sl 147,9)”28. Não agindo com indiferença, mas, ao contrário, mantendo e sustentando as mais pequenas das suas criaturas, o Criador demonstra seu afeto e zelo, importando-se com o bem estar e dando-lhes o necessário para a manutenção de sua existência. Dessa forma compreendesse que, a finalidade da perícope não está voltada para criar pânico ou mesmo horror nas mentes e nos corações dos leitores. O ensinamento do mestre “não termina com a nota da terrível onipotência de Deus. Ele, após estabelecer o único a ser temido (...), lembra imediatamente seus ouvintes da ternura e compaixão do Altíssimo”29.
Esse questionamento, usado por Jesus, serve também de forma prefaciada para a conclusão final de seu raciocínio. Magistralmente, o taumaturgo galileu prepara seus discípulos e os conduz de forma perspicaz para a valorosa e crucial compreensão da sua mensagem.
v.7: “ ἀλλὰ καὶ αἱ τρίχες τῆς κεφαλῆς ὑμῶν πᾶσαι ἠρίθμηνται. μὴ φοβεῖσθε· πολλῶν στρουθίων διαφέρετε/Mas também os fios de cabelos de vossas cabeças todos são contados. Não temais: valeis mais do que muitos pardais”. Ao iniciar o diálogo com seus
discípulos, Jesus ordena: Não temais! Ao chegar ao término da perícope, novamente escutamos a voz do mestre: Não temais! Não há dúvidas que sobressai no discurso do Nazareno um grande apelo à confiança e à entrega plena nas mãos do Pai Criador30. Para tanto, é evocado até a contabilidade dos fios de cabelo de cada pessoa. Uma vez que nenhum pardal é esquecido, muito mais pode se dizer da obra-prima da criação que é o ser humano31. Consoante Edwards, Não há discussão nem contradição na mente de Jesus entre o amor de Deus e a justiça de Deus, entre Deus como Pai e Deus como Juiz final. Aquele que tem autoridade incomparável para condenar é único que não precisa ser temido porque sua onisciência e compaixão sem-fim envolvem os pardais do céu e os cabelos da nossa cabeça32.
Recordando o início da perícope de Lc 12,4-7, o alerta recai sobre as situações cruciais de ameaças e perseguições que exigirão dos discípulos, até mesmo o arriscar de suas próprias vidas. Porém, mesmo diante da violência extrema e da pena capital, é necessária a memória da amizade, isto é, do vínculo de intimidade e confiança, que foi estabelecida por Jesus com seus discípulos. Seus amigos e amigas não precisam viver aterrorizados ou mesmo angustiados. Suas existências são, definitivamente, marcadas pela esperança e pela certeza da providência divina: “em Deus confio: jamais temerei! Que poderia fazer-me o homem?” (Sl 56,12). Segundo Pérez Millos, O ministério de pregar o evangelho do reino levava consigo muitas dificuldades, rejeições e inclusive perigos, mas o medo não tem lugar na vida do mensageiro. Nada é mais valioso para Deus do que um de seus filhos, por ele entregou seu Filho Unigênito, portanto, aqueles que são de tão alto valor para Deus estarão sempre em seu propósito e sob sua proteção. Se Ele controla tudo e sabe o que acontece aos pardais, quanto mais ele estará na supervisão e proteção daqueles que são mais valiosos do que muitos pardais33.
3. Contexto e estrutura dos documentos
O texto de Lc 12,6 é a única citação bíblica presente simultaneamente nos três documentos analisados pelo nosso estudo (Laudato Si’, Querida Amazônia e Laudate Deum); não existe uma outra citação repetida sequer em duas. No corpus do Novo Testamento, o livro mais citado pertence ao corpus dos Evangelhos, seguido pelos escritos paulinos, embora sem um número expressivo. Atos dos Apóstolos e as Cartas pastorais não são citadas, assim como a Carta aos Hebreus. No quadro a seguir, onde são apresentadas apenas as citações bíblicas do NT, presentes nos documentos, podemos conferir a gamas de citações nos três documentos de Francisco34, realçando em negrito a citação comum entre os três (Lc 12,6):
| Corpus | Citações |
|---|---|
| Evangelhos (4) | Mateus (9x): 5,45 (LS 94); 6,3-4 (LS 220); 6,26 (LS 96); 8,27 (LS 98); 11,19 (LS 98); 11,25 (LS 96); 13,31-32 (LS 97); 20,25-26 (LS 82); 6,28-29 (LD 1). Marcos (3x): 6,3 (LS 98); 10,21 (LS 226); 16,15 (QA 64). Lucas (4x): 12,6 (LS 96, 221; QA 57; LD 1). João (2x): 1,14 (LS 99); 4,35 (LS 97). |
| Atos (0) | Atos dos Apóstolos: não é mencionado. |
| Paulo (3) | Romanos (3x): 1,20 (LS 12); 8,22 (LS 2); 12,1 (LS 220). 1Coríntios (2x): 15,28 (LS 100); 9,16 (QA 62). Colossenses (2x): 1,16 (LS 99); 1,19-20 (LS 100). |
| Pastorais (0) | Cartas Pastorais: nenhuma é mencionada. |
| Hebreus (0) | Carta aos Hebreus: não é mencionada. |
| Católicas (1) | Tiago: 5,15 (QA 88), em nota de rodapé. |
| Apocalipse (1) | Apocalipse: 12,1 (LS 241); 21,5 (LS 243). |
Fonte: Tabela dos autores.
É importante observar, mesmo não sendo o escopo principal deste trabalho, o uso da Sagrada Escritura nos documentos analisados. A análise da tabela permite perceber o valor atribuído ao corpus do Novo Testamento e evidencia a relevância do encontro entre Bíblia e Teologia.
Na abordagem dos escritos, o presente estudo não tem a pretensão de realizar ou esgotar uma análise a respeito de todos os contextos nos quais foram produzidos os três documentos (Laudato Si’, Querida Amazônia e Laudate Deum). A intenção se volta apenas para a exposição de alguns pontos dos contextos históricos que ajudam na compreensão e reflexão destes, bem como a apresentação de tópicos em que cada um foi estruturado e o contexto redacional em que a citação de Lc 12,6 é utilizada.
3.1. Laudato Si’
Nos primeiros números desenvolvidos na Carta Encíclica Laudato Si’, do n.1 ao n.16, o Papa Francisco realiza um valioso e significativo retrospecto histórico com intuito de, partindo do canto de Francisco de Assis35 e fazendo memória do Papa João XXIII36, realizar um convite, além do mundo católico, a todas as pessoas de boa vontade37 e, em particular, a cada habitante do planeta. O convite evolui para um apelo urgente38, mas nunca desesperador, pois o Papa Francisco buscava convencer e sensibilizar para o enfrentamento do desafio do colapso socioecológico, reconhecendo sua grandeza, urgência e beleza39. Nas palavras do Papa Francisco, é possível articular tais adjetivos pois ele acreditava e promovia a união e a esperança que vencem toda polarização e o medo; convocava para uma nova solidariedade universal40 que se opõe a qualquer indiferença e exclusivismo e, com humildade e destreza, propunha linhas para o diálogo e a ação, oriundas do tesouro da experiência espiritual cristã41.
Laudato Si’ nasce e bebe da fonte, já magistral e secular, da Doutrina Social da Igreja, assim como dos significativos e valiosos estudos científicos e pesquisas internacionais que, articulam entre si, as causas e consequências, da longa, permanente e contemporânea crise socioambiental, presente e crescente, em nossa Casa Comum. Conforme Martins Filho e Tavares, Colocado no horizonte do pensamento social da Igreja, o pontificado de Francisco deslocou o debate ambiental para o centro da reflexão teológica e pastoral. Ao recuperar o cuidado como categoria teológica e criticar o paradigma tecnocrático, a indiferença global e a lógica do descarte, ele renovou linguagem e símbolos e reposicionou a Igreja como interlocutora nas discussões sobre justiça climática, desenvolvimento sustentável e direitos dos povos originários.42 Publicada em 24/05/2015, a Laudato Si’, em sua estrutura, apresenta ao longo de seis capítulos, um forte apelo profético em defesa e proteção da Casa Comum e da superação do paradigma tecnocrático. Inspirada na já conhecida metodologia latino-americana do Ver, Julgar e Agir, o documento articula eixos temáticos que perpassam suas seções e relacionam-se entre si, ao longo de toda a extensão da obra43. Gradativamente, o Papa Francisco apresentou dados científicos que fundamentam a crise socioambiental, suas causas e consequências, e abordou reflexões que visam a superação do colapso ecológico por meio da proposta de uma educação ambiental, base para a conversão ecológica e o cuidado com a Casa Comum44, fato este que se percebe já em sua estrutura: Preâmbulo, nn. 1 a 16; Cap. I: O que está acontecendo com a nossa casa, nn. 17 a 61; Cap. II: O Evangelho da Criação, nn. 62 a 100; Cap. III: A raiz humana da crise ecológica, nn. 101 a 136; Cap. IV: Uma ecologia integral, nn.137 a 162; Cap. V: Algumas linhas de orientação e ação, nn. 163 a 201; Cap. VI: Educação e espiritualidade ecológicas, nn. 202 a 246.
Laudato Si’ é concluída com duas orações: Oração pela nossa terra e Oração cristã com a criação. O uso da citação de Lc 12,6 está presente em dois capítulos distintos. No Cap. II, próximo do seu término:
Jesus retoma a fé bíblica no Deus criador e destaca um dado fundamental: Deus é Pai (cf. Mt 11, 25). Em colóquio com os seus discípulos, Jesus convidava-os a reconhecer a relação paterna que Deus tem com todas as criaturas e recordava-lhes, com comovente ternura, como cada uma delas era importante aos olhos d’Ele: «Não se vendem cinco pássaros por duas pequeninas moedas? Contudo, nenhum deles passa despercebido diante de Deus» (Lc 12, 6). «Olhai as aves do céu: não semeiam nem ceifam nem recolhem em celeiros; e o vosso Pai celeste alimenta-as» (Mt 6, 26)45.
E novamente, a citação é usada no Cap. VI, última parte do documento, Ajudam a enriquecer o sentido dessa conversão várias convicções da nossa fé, desenvolvidas no início desta Encíclica, como, por exemplo, a consciência de que cada criatura reflete algo de Deus e tem uma mensagem para nos transmitir, ou a certeza de que Cristo assumiu em Si mesmo este mundo material e agora, ressuscitado, habita no íntimo de cada ser, envolvendo-o com o seu carinho e penetrando-o com a sua luz; e ainda o reconhecimento de que Deus criou o mundo, inscrevendo nele uma ordem e um dinamismo que o ser humano não tem o direito de ignorar. Porventura uma pessoa, ouvindo no Evangelho Jesus dizer – a propósito dos pássaros – que «nenhum deles passa despercebido diante de Deus» (Lc12, 6), será capaz de os maltratar ou causar-lhes dano? Convido todos os cristãos a explicitar essa dimensão da sua conversão, permitindo que a força e a luz da graça recebida se estendam também à relação com as outras criaturas e com o mundo que os rodeia, e suscite aquela sublime fraternidade com a criação inteira que viveu, de maneira tão elucidativa, São Francisco de Assis46.
Como observado, em capítulos distintos, o uso de Lc 12,6, realça a reflexão sobre o respeito e o cuidado com a obra da criação, mesmo em relação às criaturas que podem ser consideradas frágeis ou de menor importância. “Cada criatura reflete algo de Deus e tem uma mensagem para nos transmitir”47. Dessa forma, o Papa Francisco considerou toda e qualquer forma de vida, assim como as demais coisas criadas, sendo importantes e carregadas de um valor intrínseco a sua existência48.
3.2. Querida Amazônia
Passados quatro anos e oito meses da publicação da Laudato Si’, no dia 02/02/2020, o Papa Francisco apresentou “ao povo de Deus e a todas as pessoas de boa vontade”49, a Exortação Apostólica Pós-Sinodal Querida Amazônia. Precedido pelo Sínodo para Amazônia, concluído em outubro de 201950, com o tema: “Amazônia, novos caminhos para a Igreja e para uma Ecologia Integral”, o documento Querida Amazônia expressa uma “síntese de algumas grandes preocupações”51 que o Papa Francisco já manifestava em documentos anteriores. Sua intenção era que ajudasse e orientasse “para uma recepção harmoniosa, criativa e frutuosa de todo o caminho sinodal”52. De acordo com Martins Filho e Tavares, O anúncio do Sínodo dos Bispos para a Amazônia, feito em 15 de outubro de 2017, e sua realização no Vaticano entre 6 e 27 de outubro de 2019 constituíram um divisor de águas na maneira como a Igreja articula missão pastoral e responsabilidade socioambiental. Situado no processo de recepção da Laudato Si’ (2015), o Sínodo refletiu o amadurecimento de uma ecologia integral de perspectiva latino-americana e sinodal, sustentada pela escuta dos povos indígenas, ribeirinhos e comunidades tradicionais da Pan-Amazônia53.
Logo nos primeiros parágrafos da Querida Amazônia, o Papa Francisco fez questão de realçar a importância do Documento conclusivo do Sínodo, lembrando que não pretendia “substitui-lo ou repeti-lo”54, convidando a “lê-lo integralmente”55. Dessa forma, Querida Amazônia ganhou sua autonomia e dinâmica própria, porém, sem tornar-se um documento paralelo ou concorrente, mas sim um texto que se une ao Documento Final do Sínodo em recíproca valorização. Ele traduz a mutualidade do processo, dignificando a jornada sinodal e apontando para a sua plena aplicação na comunhão eclesial.
Utilizando da categoria de “sonhos”56, o Papa Francisco elaborou a organização da Querida Amazônia da seguinte forma: Preâmbulo, n.1; O sentido desta Exortação, nn. 2 a 4; Sonhos para a Amazônia, nn. 5 a 7; Cap. I: Um Sonho Social, nn. 8 a 27; Cap. II:
Um Sonho Cultural, nn. 28 a 40; Cap. III: Um Sonho Ecológico, nn. 41 a 60; Cap. IV: Um Sonho Eclesial, nn. 61 a 110; Conclusão: A Mãe da Amazônia, n.111 É possível perceber, por meio da estrutura do Documento, que os capítulos seguem progressivamente interconectados e promovendo entre si, o processo de análise da realidade em vista de uma conversão necessária e possível. Dessa forma, de acordo com Martins Filho Assim sendo, o texto da Exortação vai pouco a pouco diluindo a intuição colhida dos sonhos de Francisco em orientações pastorais, encorajamento, e até mesmo algumas provocações, para que nos tornemos capazes de realizá-los entre nós. O fato de se expressarem como sonhos não quer dizer que se reduzam a abstrações oníricas, a elucubrações descoladas do solo concreto em que a vida transcorre. Sonhos aqui são como metas a serem alcançadas num itinerário conjunto. Sonhos que darão lugar a novos sonhos, sempre intermediados pelas conquistas que ensejam57.
No n. 57, no Capítulo III: Um Sonho Ecológico, encontra-se a citação de Lc 12,6:
Jesus disse: «Não se vendem cinco pardais por duas moedinhas? No entanto, nenhum deles é esquecido diante de Deus» (Lc 12, 6). Deus Pai, que criou com infinito amor cada ser do universo, chama-nos a ser seus instrumentos para escutar o grito da Amazónia. Se acudirmos a este clamor angustiado, tornar-se-á manifesto que as criaturas da Amazónia não foram esquecidas pelo Pai do céu. Segundo os cristãos, o próprio Jesus nos chama a partir delas, «porque o Ressuscitado as envolve misteriosamente e guia para um destino de plenitude. As próprias flores do campo e as aves que Ele, admirado, contemplou com os seus olhos humanos, agora estão cheias da sua presença luminosa» (LS, n.100). Por todas estas razões, nós, os fiéis, encontramos na Amazónia um lugar teológico, um espaço onde o próprio Deus se manifesta e chama os seus filhos58.
A reflexão desenvolvida por Francisco trouxe uma nova abordagem de Lc 12,6, na qual a Teologia da Criação, presente na Laudato Si’, aqui neste novo documento, concretiza-se na defesa específica da Amazônia, unindo a espiritualidade e o grito da Casa Comum. Seu olhar incide nas inúmeras agressões sofridas ao longo dos séculos pela exploração e desmatamento da floresta, assim como a degradação e poluição provocada pela extração indiscriminada de minérios, entre outros males. O convite recai para os cristãos que devem identificar a presença do Ressuscitado em toda a obra da criação (flores do campo, aves do céu) e reconhecer a Amazônia como locus theologicus, isto é, lugar privilegiado da presença e ação divinas.
3.3. Laudate Deum
Lançada no dia 04/10/2023, data da memória e devoção do santo padroeiro da Ecologia, Francisco de Assis, a Exortação Apostólica Laudate Deum carregava em seu interior, a profunda preocupação do Papa Francisco em relação ao avanço da crise socioambiental e ao possível colapso da 28ª Conferência das Partes da ConvençãoQuadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (CQNUMC), a COP28, realizada na Expo City, Dubai, Emirados Árabes Unidos, de 30/10 a 12/12/23. Francisco fazia um alerta para toda a humanidade:
Já se passaram oito anos desde a publicação da Carta Encíclica Laudato si’, quando quis partilhar com todos, irmãs e irmãos do nosso maltratado planeta, a minha profunda preocupação pelo cuidado da nossa Casa Comum. Com o passar do tempo, entretanto, dou-me conta de que não estamos reagindo de modo satisfatório, pois este mundo que nos acolhe, está se desfazendo e, talvez, aproximando-se de um ponto de rutura. Independentemente desta possibilidade, não há dúvida que o impacto da mudança climática prejudicará cada vez mais a vida de muitas pessoas e famílias. Sentiremos os seus efeitos em termos de saúde, emprego, acesso aos recursos, habitação, migrações forçadas e noutros âmbitos59.
Mesmo diante desse possível quadro irreversível, a Laudate Deum ultrapassou a simples denúncia das causas e efeitos da crise socioambiental, superando a perspectiva de previsões fatalistas ou catastróficas60. Pelo contrário, apesar “dessa triste realidade e grave constatação, Francisco sempre apontou para o horizonte da esperança61”. O capítulo final do documento busca “recordar as motivações” espirituais que brotam da fé, sejam de católicos ou “irmãos e irmãs de outras religiões”, promovendo assim uma profunda mudança no agir humano, isto é, seu apelo é encorajador e cheio de esperança, uma vez que “a fé autêntica não só dá força ao coração humano, mas transforma a vida inteira, transfigura os objetivos pessoais, ilumina a relação com os outros e os laços com toda a criação”62.
Anos antes da redação do documento, em 2020, a humanidade enfrentou a grave e sistêmica crise de saúde global provocada pelo SARS-CoV-2, vírus causador da Covid- 1963, responsável por uma pandemia de alta letalidade. Decretada pela Organização Mundial de Saúde, no dia 11 de março de 2020, a pandemia do novo corovanvirus catalisou uma profunda reconfiguração social, impulsionada pela implementação de medidas emergenciais destinadas a conter a taxa de contágio e reduzir a mortalidade. O Papa Francisco lamentou a oportunidade perdida, frente às crises globais, que poderiam favorecer uma real e impactante mudança mundial:
É lamentável que as crises globais sejam desperdiçadas, quando poderiam ser ocasião para introduzir mudanças salutares (cf. FT, n. 170). Assim sucedeu na crise financeira de 2007-2008 e voltou a acontecer na crise da pandemia Covid-19. De facto «parece que as reais estratégias, posteriormente desenvolvidas no mundo, se têm orientado para maior individualismo, menor integração, maior liberdade para os que são verdadeiramente poderosos e sempre encontram maneira de escapar ilesos» (FT, n.170)64.
Laudate Deum dá continuidade ao pensamento do Papa Francisco, iniciado na Laudato Si’65, promovendo assim o diálogo e a reflexão em busca da superação do paradigma tecnocrático e reforçando, por meio da coragem profética, o combate contra a ideologia de mercado que busca somente a exploração e a degradação da Casa Comum. Sua estrutura está disposta da seguinte forma: Preâmbulo, nn.1 a 4; Cap. I: A crise climática global, nn. 5 a 19; Cap. II: O crescente paradigma tecnocrático, nn. 20 a 33; Cap. III: A fragilidade da política internacional, nn. 34 a 43; Cap. IV: As conferências sobre o clima: avanços e retrocessos, nn. 44 a 52; Cap. V: O que se espera da COP – 28 em Dubai?, nn. 53 a 60; Cap. VI: As motivações espirituais, nn.61 a 73.
Diferentemente dos outros dois documentos já citados, Laudate Deum é o único que apresenta referências bibliográficas. E a citação de Lc 12,6 é utilizada já no parágrafo n.1 do documento:
«LOUVAI A DEUS por todas as suas criaturas»: foi este o convite que São Francisco de Assis fez com a sua vida, os seus cânticos e os seus gestos. Retomou assim a proposta dos salmos da Bíblia e reproduziu a sensibilidade de Jesus para com as criaturas de seu Pai: «Aprendei dos lírios do campo, como crescem. Não trabalham, nem fiam, e, no entanto, eu vos digo, nem Salomão, em toda a sua glória, jamais se vestiu como um dentre eles» (Mt 6, 28-29). «Não se vendem cinco pardais por duas moedinhas? No entanto, nenhum deles é esquecido diante de Deus» (Lc 12, 6). Como deixar de admirar esta ternura de Jesus por todos os seres que nos acompanham no nosso caminho?66 A reflexão desenvolvida neste parágrafo, retoma o pensamento da Laudato Si’ ao indicar a passagem bíblica de Lc 12,6, em conjunto com Mt 6,28-29, como ponto de partida para compreensão da beleza presente nas criaturas e o louvor às obras da criação divina. Dessa maneira, evoca um dos princípios fundamentais da Teologia da Criação, em que a origem de todos os seres e de tudo que existe, é fruto da vontade livre e amorosa do Criador67.
4. O enfrentamento da crise socioambiental
Ao longo dos seus documentos, pronunciamentos, viagens e no decorrer de seu pontificado, o Papa Francisco propôs um contínuo estado de enfrentamento e combate às causas da crise socioambiental assim como, apontou em direção a diversas e importantes propostas para uma nova forma de se relacionar com a Casa Comum. No capítulo V da Laudato Si’, são apresentadas algumas linhas de orientação e ação com o objetivo de “delinear grandes percursos de diálogo que nos ajudem a sair da espiral de autodestruição onde estamos afundando”68.
O magistério ecológico da Igreja Católica alcançou “sistematização teológica e repercussão mundial”69 com o Papa Francisco, especialmente por meio do paradigma da Ecologia Integral.
Francisco conduziu a Igreja a novo nível de engajamento diante da crise ecológica e climática. Sua orientação não rompeu com pontificados anteriores, mas aprofundou elementos já presentes, como a ecologia humana, a crítica ao consumismo e a denúncia das desigualdades globais. O diferencial de Francisco foi a formulação sistemática de uma ecologia integral, que relaciona pessoas, natureza, instituições sociais e espiritualidade70.
Seu legado nos convoca a assumir o amplo e profundo processo de conversão ecológica71 que, aplicado às várias dimensões da existência, sejam elas a social, a cultural, a econômica, a espiritual, a biológica, entre muitas outras, converge para o desenvolvimento e aplicação da Ecologia Integral72. Nesse sentindo, destacamos duas importantes reflexões: o sonho eclesial e o movimento Economia de Francisco e Clara.
4.1. O sonho eclesial
No capítulo IV da Querida Amazônia, o Papa Francisco apresentou seu sonho eclesial. Esse último capítulo, conectado aos anteriores, reúne as reflexões e propostas apresentadas, visando fortalecer as ações de evangelização em curso e impulsionar novas iniciativas concretas.
No parágrafo inicial, Francisco fez questão de recordar a caminhada histórica realizada até então, ao citar os vários encontros eclesiais e seus documentos finais73. O sonho eclesial parte desse chão amazônico e deve evoluir sempre em busca do autêntico e explicito anúncio de Jesus Cristo e seu Evangelho, preferencialmente aos mais pobres e abandonados74. Esse anúncio salvífico, deve ser como um grito missionário, evitando assim, qualquer risco ou tentação de transformar e/ou reduzir a evangelização em mera ação social:
Eles têm direito ao anúncio do Evangelho, sobretudo àquele primeiro anúncio que se chama querigma e ‘é o anúncio principal, aquele que sempre se tem de voltar a ouvir de diferentes maneiras e aquele que sempre se tem de voltar a anunciar, de uma forma ou de outra»[...]’ (EG, n. 164). É o anúncio de um Deus que ama infinitamente cada ser humano, que manifestou plenamente este amor em Cristo crucificado por nós e ressuscitado na nossa vida. Proponho voltar a ler um breve resumo deste conteúdo no capítulo IV da Exortação Christus Vivit. Este anúncio deve ressoar constantemente na Amazónia, expresso em muitas modalidades distintas. Sem este anúncio apaixonado, cada estrutura eclesial transformar-se-á em mais uma ONG e, assim, não responderemos ao pedido de Jesus Cristo: ‘Ide pelo mundo inteiro e proclamai o Evangelho a toda criatura!’ (Mc 16, 15)75.
Grande parte do capítulo IV aborda o tema da inculturação (nn. 66 a 90). Os demais números são dedicados às comunidades (nn.91 a 98), às mulheres (nn. 99 a 103), à superação dos conflitos (nn. 104 a 105) e à convivência ecumênica e interreligiosa (nn. 106 a 110). O sonho eclesial de Francisco baseou-se essencialmente por essa imagem: a tradição da Igreja como a “raiz de uma árvore”, não como “um depósito estático ou peça de museu, mas como a raiz que cresce”, alimentando-se dos nutrientes do solo amazônico, onde o evangelho está sendo anunciado, sem desprezar suas características, culturas, sabedorias e ancestralidades76. A principal ferramenta para conseguir essa renovada inculturação é a escuta77. Valorizar a sabedoria ancestral, reconhecer seus valores, acolher seu modo de vida austera e simples78.
Ressalta-se, ainda, o encorajamento ao serviço de pastoral de conjunto que deve ser aprofundado através da REPAM79 e demais organizações, sejam elas eclesiais, governamentais ou não-governamentais. A atuação em rede deve potencializar a, já existente, capilaridade no território amazônico, em vista da defesa do bioma e na garantia de direitos dos povos amazônicos, tradicionais, ribeirinhos e quilombolas. Para isso, o processo sinodal é de suma importância, pois aponta para a vivência do caminhar juntos, isto é, deve-se romper com toda e qualquer prática fragmentária e individualista. Os cristãos na Amazônia são interpelados, não à produção de mais um conceito abstrato80 ou meramente retórico, mas sim a um verdadeiro estilo de vida e à práxis, caracterizados pela comunhão e participação, por estruturas pastorais a serviço do cuidado pela Casa Comum, pela contínua e profética ação missionária, As comunidades de base, sempre que souberam integrar a defesa dos direitos sociais com o anúncio missionário e a espiritualidade, foram verdadeiras experiências de sinodalidade no caminho evangelizador da Igreja na Amazónia. Muitas vezes ‘têm ajudado a formar cristãos comprometidos com a sua fé, discípulos e missionários do Senhor, como o testemunha a entrega generosa, até derramar o sangue, de muitos dos seus membros’ (DAp, n.178)81.
O sonho eclesial de Francisco, portanto, reforça o caminho sinodal já indicado no Sínodo para a Amazônia. Tal caminho conduz para a harmoniosa relação com a obra da criação, fortalece os compromissos assumidos pelos batizados e batizadas, estreita os laços de partilha e solidariedade entre as comunidades eclesiais. Torna-se um imperativo a ser assumido com todo vigor, na certeza de que só serão superadas as longínquas distâncias geográficas se houver um amplo esforço de cooperação entre as Igrejas irmãs. Segundo Santos, Em seu sonho eclesial, o Papa quis destacar o papel do trabalho em rede e de ajuda mútua que pode haver entre as igrejas particulares, em favor da evangelização na Amazônia. (...) De fato em nossa visão o Sínodo mostrou que as igrejas locais na Pan-Amazônia sentem a necessidade de intensificar e diversificar as formas de cooperação missionária, com novas modalidades de intercâmbio eclesial, por meio da incrementação de projetos entre as igrejas irmãs onde já existe, ou criação destes nas conferências em que ainda porventura não existam, promovendo partilha entre dioceses com mais recursos e aquelas mais pobres82.
4.2. A Economia de Francisco e Clara
Mesmo antes da publicação da Laudato Si’’, o Papa Francisco, ousadamente, já denunciava em sua primeira Exortação Apostólica, Evangelii Gaudium, a terrível “economia da exclusão e da desigualdade social”83. As consequências do atual modelo econômico podem ser constatadas por todos, em vários lugares do mundo, em especial nos grandes centros urbanos onde, predominantemente, “grandes massas da população veem-se excluídas e marginalizadas: sem trabalho, sem perspectivas, num beco sem saída”84. Francisco estabelece então, a clara e evidente relação existente entre a “economia de mercado” e a crise ambiental, Enquanto os lucros de poucos crescem exponencialmente, os da maioria situam-se cada vez mais longe do bem-estar daquela minoria feliz. Tal desequilíbrio provém de ideologias que defendem a autonomia absoluta dos mercados e a especulação financeira.
(...) A ambição do poder e do ter não conhece limites. Neste sistema que tende a fagocitar tudo para aumentar os benefícios, qualquer realidade que seja frágil, como o meio ambiente, fica indefesa face aos interesses do mercado divinizado, transformados em regra absoluta85.
Ao afirmar que não existem “duas crises separadas: uma ambiental e outra social; mas uma única e complexa crise socioambiental”86, o Papa Francisco não poupou contundentes críticas e tampouco suavizou seu discurso profético ao indicar os males e as desigualdades sociais provocadas pela “globalização do paradigma tecnocrático” e pela “cultura do relativismo prático”87. No entanto, mais do que diagnosticar as causas da crise moderna, ele construiu – com trabalho incansável e persistência invejável – um caminho sólido para sua superação. Sua atuação pautou-se no diálogo constante, articulando audiências e encontros com líderes mundiais e, especialmente, com os movimentos populares.
Em 2019, por meio de uma carta, o Papa Francisco convocou um evento a ser realizado em Assis, cujo objetivo seria promover um “pacto” comum, “para combater a cultura do descarte, para dar voz a quantos não a tem, para propor novos estilos de vida”88. O nome do evento era peculiar e sugestivo: “Economy of Francesco/Economia de Francisco”. De acordo com Viana, Em 2019, o Papa convocou economistas e empreendedores para criar a ‘Economia de Francisco’, uma iniciativa global com foco na reconstrução de um sistema econômico mais justo, inclusivo e sustentável. A proposta valoriza a ética, a solidariedade, o cuidado com a criação e a participação comunitária.
Os princípios para a nova economia defendida pelo Papa incluem seis eixos: (i) centralidade da pessoa, (ii) cuidado com a criação, (iii) justiça distributiva, (iv) trabalho digno, (v) solidariedade intergeracional e (vi) participação local. Trocando em miúdos, a economia deve servir ao ser humano, e não o contrário. A produção e o consumo devem respeitar os limites ecológicos do planeta. É necessário combater a desigualdade e garantir acesso justo aos recursos. O trabalho é um direito humano fundamental e fonte de dignidade. Devemos preservar os recursos para as futuras gerações. As decisões econômicas devem incluir os mais pobres e os povos tradicionais89.
A carta convocatória repercutiu no Brasil e, alguns meses depois, no dia 10/07/2019, no salão da Paróquia São Domingos90, em São Paulo, reuniram-se os primeiros articuladores brasileiros. Mais tarde, foi realizado o I Encontro Nacional da Economia de Francisco, realizado nos dias 18 e 19 de novembro do mesmo ano. Segundo Brasileiro, A carta aprovada e publicada ao final do Encontro Nacional pela Economia de Francisco (ENEF) anunciou uma discussão propalada pelos corredores do evento durante os 2 dias. A base para uma economia avessa aos valores erigidos pelo capitalismo necessitava da oposição a toda fundamentação do patriarcalismo que orientou as noções de progresso desenvolvimento e relacionalidade com a vida comum. O documento ‘Carta de Clara e Francisco – direto do Brasil para o Encontro com o papa Francisco’ anunciava que os brasileiros e brasileiras gostariam de acrescentar à proposta realizada pelo papa de ‘Economia de Francisco’ o nome de Santa Clara de Assis, uma jovem que se somou ao projeto de São Francisco de Assis junto de outros jovens91.
A Articulação Brasileira pela Economia de Francisco e Clara (ABEFC) segue em contínuo fortalecimento – até os dias atuais – consolidando-se como um movimento territorializado que transforma princípios éticos em práticas concretas de economia solidária e justiça socioambiental. Por meio da realização de encontros nacionais e regionais, prossegue organizando e articulando várias ações e projetos que visam estabelecer concretamente seus objetivos principais de transformações na economia e superação da cultura do descarte. No decorrer dessa trajetória, iniciada em 2019, a meta de “realmar a economia”92 continua sendo uma das suas pautas prioritárias, buscando, assim, formas criativas e populares para efetivar plenamente uma outra economia possível.
Entre as várias iniciativas realizadas pela ABEFC, destaca-se o projeto Casas de Francisco e Clara (CFC). Constituindo-se como espaço de encontro e acolhida, as Casas de Francisco e Clara são verdadeiros oásis de esperança em meio ao deserto do consumismo desenfreado e do neoliberalismo, que geram pobreza e exclusão social. Existentes em seis cidades93, com predominância da liderança feminina, esses espaços promovem a troca de experiências e saberes entre os grupos populares e as inúmeras associações e organizações juvenis. A Casa Amazônica de Francisco e Clara, no bairro Zumbi dos Palmares II94, em Manaus, capital do Amazonas, firma-se sobre a sólida diretriz da partilha e da solidariedade em prol do desenvolvimento e da aplicação de políticas públicas e ecológicas. Conforme Brasileiro, A consolidação das Casas de Francisco e Clara nasce da união estratégica de diversas iniciativas já experimentadas por comunidades espalhadas pelo Brasil. Esse espaço como referência é sobretudo um ambiente oferecido, que favorece a mística, a troca, o diálogo, a escuta, o planejamento e a realização de projetos de caráter socioambiental que visam conceber e/ou fortalecer economias alternativas para melhoria das condições de vida das pessoas e comunidades alcançadas em conjunto com o cuidado e defesa da Mãe Terra. Tem-se como horizonte a promoção de uma Ecologia Integral95.
Os sonhos do Papa Francisco não só seguem em processo de concretização como vêm provocando uma revolução silenciosa, popular e necessária. Nas periferias dos grandes centros urbanos e mesmo nas comunidades ribeirinhas, entre os povos originários e nos territórios quilombolas, robustecem-se as redes e consolidam-se as experiências que promovem a agroecologia, a agricultura familiar, os Bancos Comunitários e tantas outras iniciativas que, como semente de esperança, brotam e se espalham como seus ramos e produzem frutos, “uma trinta, outra sessenta e outra cem” (Mc 4,8).
Conclusão
“Tudo está interligado/relacionado”96. Essa frase, ao repeti-la por diversas vezes em seus documentos e pronunciamentos, o Papa Francisco a usava para sintetizar o valor e a importância do cuidado com a Casa Comum e falar sobre o desenvolvimento de uma Ecologia Integral, que deveriam estar sempre presentes nas ações de evangelização da Igreja. Assim como em Lc 12,6, nenhuma das pequenas criaturas são esquecidas diante do criador, também nós, somos convocados para redimensionar nosso olhar em direção ao equilíbrio ecológico e à superação do paradigma tecnocrático.
A perícope de Lc 12,4-7, iniciada e concluída com a importante ordem de Jesus “μὴ φοβηθῆτε/não temais”, transmite uma valiosa e importante lição para seus ouvintes de ontem e de hoje: confiem e nunca se esqueçam do amor misericordioso e providente de Deus. Ele que, em sua onipotência divina, revela-se como o Eterno misericordioso (Sl 103,8) e, por isso, encoraja-nos a enfrentar os desafios e as constantes ameaças das forças políticas e econômicas que promovem o desiquilíbrio ambiental, poluem nossos rios e igarapés e, cada vez mais, provocam a degradação dos biomas e o esgotamento dos recursos naturais.
O legado do Papa Francisco consiste, portanto, na dinamicidade da animação pastoral, à luz da reflexão bíblica, para uma verdadeira atualização da práxis cristã voltada para dimensão missionária e sinodal. Somente uma Igreja comprometida com o anúncio inculturado da paixão redentora de Jesus e em permanente estado de saída será capaz de se fazer presente nas periferias sociais e existenciais dos homens e mulheres de hoje e de suscitar uma mudança real em prol do amor e do cuidado com a Casa Comum.
Por meio das pequenas iniciativas das comunidades eclesiais de base, valorizando a sabedoria das diversas tradições, povos e culturas, será possível desempenhar um importante protagonismo social. O trabalho em redes, grupos sociais, cooperativas, entre outros, desenvolve iniciativas promissoras para a tão necessária conversão ecológica pautada nos valores de sobriedade, solidariedade humana e preocupação com o bem comum.
A busca pela paz entre os povos e as nações, assim como a união das forças de homens e mulheres de fé, em especial da juventude, deve ser estímulo para alcançar as mudanças urgentes e necessárias e reais ações políticas que, impactando de forma profunda nossas relações sociais e ambientais, promovam um futuro que objetive o desenvolvimento humano sustentável e integral.
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Notas
3 GONZAGA, W.; BELEM, D. F., O Pentateuco e os “pentateucos” na Bíblia: uma abordagem canônica, p. 247-277.
4 GONZAGA, W., Compêndio do Cânon Bíblico, p. 283; confira também GONZAGA, W., O Corpus Paulinum no Cânon do Novo Testamento, p.19.
5 GONZAGA, W., O Cânon Bíblico do Novo Testamento, p. 19.
6 GONZAGA, W., O Cânon Bíblico do Novo Testamento, p. 21.
7 KUMMEL, W. G., Introdução ao Novo Testamento, p. 156.
8 PORTER, L., Lucas. p. 1131.
9 CRADDOCK, F. B., Luca, p. 205.
10 “μου/de mim”: Pronome pessoal no genitivo singular de “ἐγώ”. Apesar da palavra estar no singular, para a língua de chegada, optou-se na concordância com o dativo plural “τοῖς φίλοις/os amigos”. Vale recordar que a gramática grega utiliza o genitivo do pronome pessoal para expressar a posse, tendo em vista a ausência do pronome possessivo (WALLACE, D., Gramática grega, 2009, p. 348).
11 “ἀσσαρίων/moedas”: nome de uma moeda que corresponde a 1/16 do salário de um dia. Opta-se, aqui, pelo termo moedas, pelo sentido na língua de chegada. (SWANSON, J. Dictionary of Biblical Languages with Semantic Domains, 1997, § 837). (tradução nossa)
12 O texto segue a edição crítica Nestle-Aland 28 (NA28). As variantes textuais não alteram significativamente a interpretação de Lc 12,4-7 e, por isso, não serão discutidas neste estudo.
13 LANCELLOTTI, A.; BOCCALI, G., Comentário ao Evangelho de São Lucas, p.141.
14 MAZZAROLO, I.; KONINGS, J., Lucas: o evangelho da graça e da misericórdia, p. 85.
15 PORTER, L., Lucas. p. 1152.
16 PÉREZ MILLOS, S., Lucas, p. 1419.
17 KARRIS, R. J., O Evangelho Segundo Lucas, p. 274.
18 PÉREZ MILLOS, S., Lucas, p. 1420. (tradução nossa)
19 PÉREZ MILLOS, S., Lucas, p. 1421. (tradução nossa)
20 CRIMELLA, M., Luca, p. 220-221. (tradução nossa)
21 GONZAGA, W.; SOUZA, Y. A., Fundamentos da oração pelos mortos, p. 245.
22 FAUSTI, S., Uma comunidade lê o Evangelho de Lucas, p. 546.
23 HENDRIKSEN, W., Lucas, p. 156.
24 PORTER, L.E., Lucas, p. 1153.
25 EDWARDS, J. R., O comentário de Lucas. p. 469.
26 BOVON, F., Luca, p. 273.
27 CRIMELLA, M., Luca, p. 221. (tradução nossa)
28 FAUSTI, S., Uma comunidade lê o Evangelho de Lucas, p. 546.
29 EDWARDS, J. R., O comentário de Lucas. p. 469.
30 ABOGUNRIN, S. O., Lucas, p. 1244.
31 CARMONA, A. R., Evangelio según san Lucas, p. 239; confira também WRIGHT, N.T., Lucas para todos, p. 188.
32 EDWARDS, J. R., O comentário de Lucas. p. 469.
33 PÉREZ MILLOS, S., Lucas, p. 1425. (tradução nossa)
34 Por uma questão objetiva, optamos apenas por apresentar as citações do NT presentes nos documentos. Os estudos com maior abrangência podem ser conferidos nos artigos de Gonzaga presentes nas referências finais.
35 LS 1.
36 LS 3.
37 MONTEIRO, E.C.; MANSANO, V.R.S., Aporofobia e a Desintegração da Casa Comum, p. 180.
38 LS 13.
39 LS 15.
40 LS 14.
41 LS 15.
42 MARTINS FILHO, J. R. F.; TAVARES, P., A., Da Gaudium et Spes à Laudate Deum, p. 389.
43 LS 16.
44 LUCAS, L. M. S.; ANDRADE, C.C., A efetivação dos objetivos de direito sustentável estabelecidos pela ONU a partir da fraternidade, p. 454.
45 LS 96.
46 LS 221.
47 MURAD, A., Pecado e conversão ecológica, p. 255.
48 LS 69.
49 QA 4.
50 RONSI, F.Q., O futuro da Amazônia, p. 129.
51 QA 2.
52 QA 2.
53 MARTINS FILHO, J. R. F.; TAVARES, P. A., Da Gaudium et Spes à Laudate Deum, p. 392.
54 QA 2.
55 QA 3.
56 QA 6.
57 MARTINS FILHO, J. R. F., Um sonho ecológico para a Igreja, p. 117.
58 QA 57.
59 LD 2.
60 LD 17.
61 GONZAGA, W.; SILVA, M. A. C., A natureza contém o imprimatur Dei (Rm 1,19-20), p. 17.
62 LD 61.
63 FT 32; confira também MANSO, L. V. P., 10 anos de Laudato Si’, p. 206.
64 LD 36.
65 GONZAGA, W.; BOSSI, D. G., A Carta aos Romanos na Encíclica Laudato Si’: o grito, a contemplação e a conversão, p. 5.
66 LD 1.
67 FONTES, E. S., Laudato Si’: O Evangelho da Criação sob o Olhar de Jesus, p. 71.
68 LS 163.
69 MARTINS FILHO, J. R. F.; TAVARES, P. A., Da Gaudium et Spes à Laudate Deum, p. 384.
70 MARTINS FILHO, J. R. F.; TAVARES, P. A., Da Gaudium et Spes à Laudate Deum, p. 389.
71 LS 216.
72 LS 137.
73 QA 61.
74 QA 63.
75 QA 64.
76 QA 66.
77 QA 70.
78 QA 71.
79 QA 97.
80 NUNES, W.L.S., A Mística Integral proposta pelo Papa Francisco, p. 172.
81 QA 96.
82 SANTOS, A. A., Amazônia um lugar teológico, p. 65.
83 EG 53.
84 EG 53.
85 EG 56.
86 LS 139.
87 LS 122.
88 FRANCISCO, PP., Carta do Papa Francisco para o evento Economy of Francesco, p. 273.
89 VIANA, V., Papa Francisco: um chamado para uma nova economia.
90 BRASILEIRO, E., Outra economia possível, p. 66.
91 BRASILEIRO, E., Outra economia possível, p. 72.
92 BRASILEIRO, E., Realmar: A economia de Francisco e Clara e a libertação da Economia, p. 23.
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94 BRASILEIRO, E., Outra economia possível, p. 147.
95 BRASILEIRO, E., Outra economia possível, p. 147.
96 LS 92, 120, 142, 138; LD 19.