Revista Ecuatoriana de Ciencias Filosófico-Teológicas (RECiFiT)
e-ISSN: 3073-1054
apresenta quem de fato deve ser temido. Fica evidente que não se trata de alguém
ou qualquer outra forma de representação do poder terreno ou de algum dos seus
governantes, nem de algum adversário. Pois agora, além de matar o corpo, o temor
autêntico recai sobre aquele que tem a “capacidade, autoridade e poder”19 de, após
a morte, lançar na Geena. Essa seria a realidade que deveria realmente atemorizar
seus ouvintes. A morte temporal e física em nada se compara ao possível destino
eterno, o qual deveria ser pautado a todo custo por meio da fidelidade a Cristo. De
acordo com Crimella,
O primeiro ‘medo’ estigmatizado é o daqueles que matam (v.4); Jesus limita o poder dos
assassinos de eliminar a vida biológica. Em seguida, a apresentação de alguém com um
poder muito maior (v.5), ou seja, o de infligir a morte eterna, é deliberadamente discreta
pedindo, a cooperação tanto dos ouvintes quanto dos leitores. No entanto, Jesus não
específica quem é essa figura misteriosa; a ênfase recai apenas na necessidade de temer:
o primeiro ‘temor’ deve ser substituído por um segundo20.
A Geena21 “é o ‘vale do Hinom’ (ge-hinnon), onde antigamente se sacrificavam vidas
humanas a Moloc e onde Israel queimava as imundices”22. Geograficamente situado
ao sul da cidade de Jerusalém, fazendo uma curva a oeste23, essa região é citada várias
vezes nas Sagradas Escrituras (2Cr 28,3; 33, 6; Lv 18,21; 1Rs 11,7). No tempo de Jesus, o
vale era reconhecido pela sua condição de agregar todo tipo de lixo, vermes, detritos,
restos de animais, entre outros24; por isso, estava continuamente com fogueiras
acessas para consumirem a grande quantidade de resíduos. Conforme Edwards,
O Geena era uma imagem vívida do inferno para a audiência de Jesus – muito próximo
do templo, a distância do lançamento de uma pedra. Aquele que “tem poder para lançar
no inferno” (v.5), à primeira vista pode parecer se referir a Satanás, mas se refere quase
com certeza a Deus, pois na tradição escritural ‘aquele que tem poder para lançar no
inferno é Deus’. Assim Deus, tem de ser temido (23,40; Sl 119, 120; Hb 10,31; Ap 14,7,10),
ao passo que Satanás não tem de ser temido, mas resistido (Tg 4,7; 1Pe 5,9). A referência
ao Geena atesta a autoridade suprema de Deus sobre a vida além do túmulo, que, em
Apocalipse 2,11; 20,6,14; 21,8, é chamada de a ‘segunda morte’25.
Será que a intenção de Jesus era aterrorizar seus ouvintes e seus futuros seguidores?
Seria o medo de ir para o inferno, o sentimento a ser cultivado em seus corações?
Precipitadamentepoderiamseresteseoutrososquestionamentosaseremformulados
caso a mensagem do mestre de Nazaré se encerrasse de forma abrupta nesse contexto.
19PÉREZ MILLOS, S., Lucas, p. 1421. (tradução nossa)
20CRIMELLA, M., Luca, p. 220-221. (tradução nossa)
21GONZAGA, W.; SOUZA, Y. A., Fundamentos da oração pelos mortos, p. 245.
22FAUSTI, S., Uma comunidade lê o Evangelho de Lucas, p. 546.
23HENDRIKSEN, W., Lucas, p. 156.
22
24PORTER, L.E., Lucas, p. 1153.
25EDWARDS, J. R., O comentário de Lucas. p. 469.