O legado espiritual do Papa Francisco para a igreja na Amazônia

P. Adelson Araújo dos Santos, S.J.

Sacerdote jesuita, profesor de Teología Espiritual en la Facultad de Teología y en el Instituto de Espiritualidad de la Pontificia Universidad Gregoriana, Roma; director del Centro San Pedro Fabro para la formación de formadores al sacerdocio y a la vida consagrada.

Pontificia Universidad Gregoriana, Roma, Italia. Profesor (Associate Lecturer) de la Facultad de Teología y del Instituto de Espiritualidad.

DOI: https://doi.org/10.26807/recifit.v3n5.93

Fecha de recepción: 31 de mayo de 2026   Fecha de aprobación: 10 de junio de 2026   Fecha de publicación: 27 de junio de 2026

Citar como: P. Adelson Araújo dos Santos, S.J. (2026). O legado espiritual do Papa Francisco para a igreja na Amazônia. Revista Ecuatoriana de Ciencias Filosófico-Teológicas, Vol. 3, N.º 5, pp. 5–18.

Resumo

Este artigo apresenta uma reflexão sobre o legado espiritual do papa Francisco para a Igreja na Amazônia. Em primeiro lugar, aborda o significado de seu pontificado como primeiro papa latino-americano e jesuíta, destacando a marca que isso deixou na vida da Igreja universal. Em segundo lugar, analisa o processo histórico e espiritual que conduziu ao Sínodo Especial para a Amazônia, considerando as etapas de preparação, celebração e recepção deste acontecimento como um dos principais legados do pontífice para a região amazônica e para a Igreja. Por fim, examina a exortação apostólica Querida Amazônia, destacando alguns de seus fundamentos teológicos e espirituais, particularmente aqueles que sustentam os sonhos propostos por Francisco para a Amazônia e para a missão eclesial. O estudo conclui com uma referência ao caminho sinodal impulsionado pelo Papa Francisco e à sua continuidade no pontificado do papa Leão XIV.

Palavras-chave: Amazônia; discernimento espiritual; ecologia integral; Papa Francisco; Querida Amazônia; sinodalidade.

Abstract

This article presents a reflection on the spiritual legacy of Pope Francis for the Church in the Amazon. First, it addresses the significance of his pontificate as the first Latin American and Jesuit pope, highlighting the mark it left on the life of the universal Church. Second, it analyzes the historical and spiritual process that led to the Special Synod for the Amazon, considering the stages of preparation, celebration, and reception of this event as one of the pope’s main legacies for the Amazon region and for the Church. Finally, it examines the apostolic exhortation Querida Amazonia, highlighting some of its theological and spiritual foundations, particularly those that underpin the dreams proposed by Francis for the Amazon and for the ecclesial mission. The study concludes with a reference to the synodal path promoted by Pope Francis and its continuity in the pontificate of Pope Leo XIV.

Keywords: Amazon; spiritual discernment; integral ecology; Pope Francis; Querida Amazonia; synodality.

Resumen

Este artículo presenta una reflexión sobre el legado espiritual del papa Francisco para la Iglesia en la Amazonía. En primer lugar, aborda el significado de su pontificado como primer papa latinoamericano y jesuita, destacando la impronta que ello dejó en la vida de la Iglesia universal. En segundo lugar, analiza el proceso histórico y espiritual que condujo al Sínodo Especial para la Amazonía, considerando las etapas de preparación, celebración y recepción de este acontecimiento como uno de los principales legados del pontífice para la región amazónica y para la Iglesia. Finalmente, examina la exhortación apostólica Querida Amazonia, poniendo de relieve algunos de sus fundamentos teológicos y espirituales, particularmente aquellos que sustentan los sueños propuestos por Francisco para la Amazonía y para la misión eclesial. El estudio concluye con una referencia al camino sinodal impulsado por el papa Francisco y a su continuidad en el pontificado del papa León XIV.

Palabras clave: Amazonía; discernimiento espiritual; ecología integral; papa Francisco; Querida Amazonia; sinodalidad.

I. Papa Francisco: Primeiro Papa latino-americano e jesuíta

1 – Um Papa Latino-Americano:

Como filho do continente e da Igreja latino-americana, Francisco, nascido Mário Jorge Bergoglio, trouxe para dentro dos muros do Vaticano e, daí, difundiu por todo mundo, o rosto de uma Igreja fiel ao Concílio Vaticano II, aberta à participação sempre maior de todas as suas forças vivas, na sua diversidade de carismas e ministérios, com especial preferência pelos jovens e pelos pobres, que constituem a grande maioria do povo de Deus, reconhecendo o protagonismo desses, mas também o dos leigos e leigas, em geral, e o das mulheres, em particular. Teologicamente falando, Francisco não dissociou nunca a centralidade da fé em Jesus Cristo, com a sensibilidade pela realidade social, muitas vezes de injustiça e opressão que atingia o seu país e o seu continente. O seu saber teológico, portanto, levou sempre em consideração a realidade concreta das pessoas, além da teoria especulativa, para daí concentrar-se na misericórdia e no seguimento de Jesus.

2 – Um Papa Jesuíta:

Além de ter sido o primeiro Papa latino-americano, o Papa Francisco foi também o primeiro membro da Companhia de Jesus a se tornar Bispo de Roma. Creio que muitos aqui já terão ouvido falar dos jesuítas e terão tido algum contato com eles. Com certeza, todos sabem que o fundador deles foi Santo Inácio de Loyola, mas talvez nem todas saibam que foram esses filhos de Santo Inácio os primeiros missionários a chegarem em terras brasileiras para iniciarem a evangelização dos seus primeiros habitantes e dos colonos portugueses. Isto se deu em 1549, tendo eles vindos na mesma nau que trouxe o primeiro governador geral do Brasil, Tomé de Souza. Nesse grupo estava o Pe. Manuel da Nóbrega como superior e, logo depois, chegou um jovem jesuíta de 19 anos, José de Anchieta, que seria séculos mais tarde canonizado pelo Papa Francisco e declarado Apóstolo do Brasil. Não é o caso de continuarmos falando da história dessa ordem, nem de seus primeiros membros. Mas, fato é que já desde o início da existência da Companhia de Jesus, a espiritualidade daqueles homens era marcada pelos Exercícios Espirituais escritos por Santo Inácio de Loyola.

Ora, se nos perguntarmos o que caracteriza tal espiritualidade, certamente deveremos afirmar que se trata, acima de tudo, de uma “espiritualidade do discernimento” e de uma “espiritualidade da missão”. Por “espiritualidade do discernimento” quero me referir a buscar e descobrir a vontade de Deus a nosso respeito, ou seja, discernir o projeto de Deus para a minha vida e fazer uma escolha, opção ou “eleição” radical e definitiva por Jesus Cristo. Em nosso entendimento, não há dúvidas de que em todos os seus 12 anos de pontificado o “discernimento” esteve no centro da mensagem espiritual de Francisco, tendo inclusive dedicado um ciclo completo de 14 catequeses especificamente a este tema, entre agosto de 2022 e janeiro de 2023. Francisco definia o discernimento como um esforço para reconhecer os sinais pelos quais o Senhor se faz encontrar em situações imprevistas ou habituais da vida, e enfatizava que discernir exige autoconhecimento e uma relação filial com Deus. Em vários de seus documentos magisteriais, como na na Exortação Apostólica Amoris Laetitia, ele propõe o discernimento como chave para o acompanhamento pastoral de pessoas em situações complexas ou particulares. Quanto à “espiritualidade da missão”, cremos ser certo afirmar que Francisco viveu e transmitiu sempre uma espiritualidade que sustenta os cristãos na sua vida apostólica, ou seja, na própria missão, uma vez que a Igreja é sempre chamada a ser “discípula e missionária”, termo encontrado no Documento de Aparecida (2007), resultado da V Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano e do Caribe, e que tem a marca de Francisco, pois foi formulada quando ele ainda era o Cardeal Jorge Mario Bergoglio e atuou como presidente da comissão de redação desse documento.

II. O processo histórico-espiritual do Sínodo especial sobre a Amazônia

1 - O ANTES: O grande processo de escuta e participação anterior ao sínodo

Uma coisa que, indubitavelmente, caracterizou o Sínodo especial sobre a Amazônia, foi a sua enorme abrangência, seja no tempo em que o mesmo foi sendo construído, seja pelo número de pessoas envolvidas neste grande processo de discernimento sobre a realidade eclesial, pastoral, social e ecológica da região pan-amazônica, compreendendo os nove países que a conformam: Brasil. Bolívia, Colômbia, Equador, Peru, Venezuela, Guiana, Suriname e Guiana Francesa. Para todos os católicos e, particularmente, para quem nasceu ou vive na Pan-Amazônia, o sínodo sobre esta região foi um tempo de kairos para as nossas comunidades, pois mostrou o quanto a Igreja, liderada pelo Papa Francisco, estava interessada em nos ouvir e saber mais sobre a nossa realidade, a fim de melhor servir o povo de Deus na região amazônica. Em tudo isso podemos perceber que ia se cumprindo aquelas proféticas palavras do hoje santo Papa Paulo VI, que afirmara: “Cristo aponta para a Amazônia”1, palavras dirigidas especialmente aos paraenses por ocasião do Círio, mas com alcance universal.

Guiado por uma espiritualidade da escuta da voz do Espírito, isto é, do discernimento, o Papa Francisco, com a convocação do sínodo levou a Igreja a discernir a sua missão diante dos desafios pastorais e socioambientais que atingem a região pan-amazônica. Isso fez com que houvesse todo um processo de preparação antes, que ajudou a forjar o rosto amazônico do sínodo, por meio de centenas de encontros, assembleias e estudos feitos in loco, por cerca de dois anos, possibilitando aos próprios amazônidas expressarem seus anseios e esperanças, seus desafios e propostas na direção de uma nova presença evangelizadora da Igreja e da construção de uma ecologia integral, tal como recorda o lema do sínodo. Ao todo, foram mais de 85.000 pessoas envolvidas nos diferentes momentos e lugares, para discernirem juntas que Igreja e que mundo queremos construir e deixar para as futuras gerações.

Nesse processo de discernimento em comum, foi fundamental reconhecer que não se estava partindo do zero, mas que somos continuadores de um movimento que já começara bem antes no seio da Igreja. De fato, já em 1952, realizava-se em Manaus o 1º Encontro inter-regional dos Bispos da Amazônia. E em 1972, na cidade de Santarém, oeste do estado do Para, novamente estiveram reunidos os bispos da Amazônia brasileira, quando decidiram basear sua ação pastoral e evangelizadora na direção de uma encarnação na realidade, pelo conhecimento e pela convivência na simplicidade, como também na evangelização libertadora. Ressalte-se que neste encontro nasceu o CIMI (Conselho Indigenista missionário), como órgão da CNBB (Conferência Episcopal dos Bispos do Brasil).

Além dele, outro Papa canonizado em nossos tempos, São João Paulo II, nas duas vezes que visitou o Brasil, em 1980 e 1991, fez questão de ir até a Amazônia para se encontrar com lideranças indígenas, prestando-lhes solidariedade na luta pelos seus direitos, dizendo-lhes:

A Igreja, queridos irmãos índios, tem estado e continuará a estar sempre a seu lado, para defender a dignidade de seres humanos, para defender o direito a ter uma vida própria e tranquila, no respeito aos valores positivos das suas tradições, costumes e culturas2.

Finalmente, há de se destacar as palavras do Papa Bento XVI, proferidas no estádio do Pacaembu, em São Paulo, diante de milhares de jovens, em 2007: “A devastação ambiental da Amazônia e as ameaças à dignidade humana de suas populações requerem um maior compromisso nos mais diversos espaços de ação que a sociedade vem solicitando”3. Todos esses fatos históricos nos fazem notar a ação do Espírito Santo conduzindo a Igreja a ir armando cada vez mais a sua tenda na Amazônia, consciente de ser uma Igreja no mundo, amando o mundo amazônico e dando a sua contribuição para o resgate de tantas dívidas sociais em relação a essa região4.

Reunidos em Santarém em 2012 para celebrar os 40 anos do Documento de Santarém, os bispos da Amazônia fazem eco a esse sopro do Espírito que aponta e se preocupa com a Amazônia, chamando a todos a uma profunda conversão pastoral para sermos mais fiéis ao que Deus está nos pedindo. Eis que, então, os bispos decidem fortalecer o compromisso profético de transformação e reafirmar o projeto de formação inspirado na espiritualidade do seguimento de Jesus, que convoca a Igreja para uma profunda conversão pastoral.

O Papa Francisco, com seu carisma e liderança próprios, não só deu continuidade a todo esse movimento da Igreja em direção à Amazônia, mas imprimiu ao mesmo um novo impulso, do qual o sínodo amazônico foi, certamente, uma de suas expressões mais contundentes, mas não a única. Com efeito, logo no início do seu pontificado, durante a Jornada Mundial da Juventude no Rio de Janeiro, em 2013, ele diria aos bispos que a Amazônia seria um “teste decisivo, um banco de prova para a Igreja e a sociedade brasileiras”5.

Em resposta a esse apelo, em 2013 ocorre o Primeiro Encontro da Igreja Católica na Amazônia Legal, no qual se reafirma que a igreja Católica na Amazônia Legal vive e cresce com características próprias, enraizadas na sabedoria tradicional e na religiosidade popular que durante muito tempo alimentou e continua a manter viva a espiritualidade dos povos da floresta e das águas e agora do mundo urbano.

Assim, diante de um clima mais favorável e sensível para com a realidade amazônica, outras iniciativas foram surgindo e se concretizando, como por exemplo a criação de uma Rede Eclesial Pan-Amazônica (REPAM), em 2014, que iria se tornar a mola propulsora de todo o processo de escuta e participação das comunidades e populações amazônicas, especialmente os povos indígenas, na preparação para o sínodo, cujo resultado final foi a elaboração do documento de trabalho, mais conhecido como Instrumentum laboris, com 120 propostas enviadas aos padres sinodais.

Contudo, não podemos esquecer que o próprio Papa Francisco afirmou que o sínodo era filho da encíclica Laudato Sì, escrita por ele em 2015. Neste documento Francisco aponta para novos paradigmas de uma ecologia integral, resgatando antigos fundamentos da teologia da criação e aplicando-os ao ecossistema de hoje, mostrando que se faz inadiável um processo de conversão dentro de uma visão ecoteológica e do cuidado da “casa comum”, que é todo o planeta Terra. Até então, nenhum papa havia escrito uma encíclica que lidasse especificamente com o tema da ecologia integral, como fez Francisco, o qual adverte a humanidade de que “existem lugares que exigem cuidados especiais por sua enorme importância para o ecossistema mundial ou que constituem reservas significativas de água, garantindo assim outras formas de vida”6.

Assim que, após todo esse caminho, em 2017 o Papa Francisco anuncia a convocação de um sínodo especial para refletir sobre: “Amazônia: novos caminhos para a Igreja e para uma Ecologia Integral”. Este sínodo, dizia o Santo Padre, deveria identificar novos caminhos para a evangelização daquela porção do Povo de Deus, especialmente dos indígenas, frequentemente esquecidos e sem perspectivas de um futuro sereno, também por causa da crise da Floresta Amazônica, pulmão de capital importância para nosso planeta.

E para dar o exemplo, o próprio Papa decide vir à Amazônia para ouvir os que os seus povos tradicionais tinham a dizer e a colaborar neste processo, o que ocorre em 2018, em Puerto Maldonado, Peru.

2 - O DURANTE: Discernindo a voz do Espírito na diversidade de línguas

Nem todos, mas com certeza a grande maioria dos padres sinodais, auditores e peritos presentes no sínodo havia participado de alguma forma do processo anterior de escuta e preparação ao mesmo, conforme mencionado acima, de modo que não só os temas a serem abordados eram familiares, mas entre os próprios participantes havia um relativo conhecimento entre si. Não obstante, mesmo entre aqueles que nunca estiveram na Amazônia, ou que não participaram da etapa anterior de preparação ao sínodo (v.g. os membros da cúria romana, convocados ex officio para o sínodo, ou os delegados de igrejas irmãs e outros convidados de fora da região), predominou desde o início um espírito de abertura, respeito e acolhida do outro (e da outra, pois era significativo o público feminino) que a todos serviu como uma confirmação da riqueza que é sermos Igreja sinodal, que cresce e se enriquece na diversidade de carismas, ministérios e vocações. Essa experiência de sinodalidade e comunhão fez com que, efetivamente, aprendêssemos naquelas três semanas a conviver e a caminhar juntos como Igreja reunida na sua pluralidade, mas sempre unida em torno à pessoa do Papa, que esteve sempre presente em todas as chamadas “congregações” do sínodo. Assim, lideranças indígenas, cardeais, teólogos, religiosas, cientistas, missionários, bispos, sacerdotes etc. eram ouvidos com o mesmo respeito em um clima de sincera busca de um consenso, que expressasse aquilo que Deus estava falando por meio de tão diferentes vozes.

Este clima favorável de abertura e escuta do outro existiu tanto na primeira semana, período forte das intervenções (discursos) livres dos padres sinodais, como também no trabalho posterior dos doze grupos linguísticos, que após vários encontros de discernimento em comum, apresentaram suas conclusões e propostas na última sessão da segunda semana, para que o relator geral do sínodo, cardeal Claudio Hummes, auxiliado pela sua equipe de redação e pelos peritos, apresentasse posteriormente em plenário uma primeira versão do Documento Final, que foi amplamente discutida e aperfeiçoada pelos padres sinodais, antes ser votada e aprovada no último dia do sínodo, como de fato aconteceu na tarde do dia 26 de outubro de 2019.

Aprovado em sua totalidade, após terem sido votados separadamente cada item do texto apresentado, este Documento Final reúne 120 tópicos conclusivos e propostas resultantes das três intensas semanas de discernimento e escuta. Em resumo, podemos dizer que a palavra central que perpassa todo o documento é a palavra “conversão”, desenvolvida em cinco capítulos, a saber:

1. Conversão integral, pela qual os padres sinodais clamam por uma:

conversão pessoal e comunitária que nos obriga a relacionar-nos harmoniosamente com a obra criadora de Deus, que é a casa comum; uma conversão que promove a criação de estruturas em harmonia com o cuidado da criação; uma conversão pastoral baseada na sinodalidade, que reconhece a interação de tudo o que é criado. Conversão que nos levará a ser uma Igreja em saída que entrará no coração de todos os povos amazônicos7;

2. Conversão pastoral, com um chamado a sermos Igreja samaritana, misericordiosa e solidária, “em diálogo, acompanhando pessoas com rostos concretos de indígenas, camponeses, afrodescendentes e migrantes, jovens, moradores da cidade”8, por meio de uma práxis missionária e itinerante, seja no meio urbano, seja no meio rural;

3. Conversão cultural, reconhecendo a pluralidade cultural da região, a partir de “um olhar que inclua a todos, usando expressões que permitam identificar e vincular todos os grupos e refletir identidades que são reconhecidas, respeitadas e promovidas tanto na Igreja quanto na sociedade”9;

4. Conversão ecológica, na qual o conceito de ecologia assume uma dimensão muito além da preservação de determinada fauna ou flora, pois que tem a ver com a dignidade, o respeito aos direitos básicos e, em última análise, à sobrevivência da própria espécie humana e de todos os seres vivos do planeta. Neste item, os padres sinodais não têm dúvidas de que, por exemplo,

para os cristãos, o interesse e a preocupação com a promoção e o respeito dos direitos humanos, tanto individuais como coletivos, não são opcionais. Os seres humanos são criados à imagem e semelhança de Deus Criador, e a sua dignidade é inviolável10.

5. Conversão sinodal, em busca de novos caminhos eclesiais para que haja mais comunhão e participação, “especialmente na ministerialidade e sacramentalidade da Igreja de rosto amazônico”. Este processo de conversão para uma maior sinodalidade deve atingir a vida consagrada, os leigos e, dentre esses, de modo especial as mulheres, já que são elas as protagonistas desta conversão, com sua presença marcante e de vanguarda em tantas comunidades da Amazônia.

3 - O DEPOIS: Do chamado à conversão à ação efetiva

A realização do Sínodo sobre a Amazônia foi, sem dúvida alguma, um marco na história da Igreja pós-Vaticano II, mas está longe de ser o ponto de chegada da missão que, como cristãos, temos de realizar em direção aos novos caminhos eclesiais e para uma ecologia integral, tão desejados pelos padres sinodais, que expressaram assim a voz de milhões de habitantes daquela região. De fato, desde a sua preparação o Sínodo representou um tempo para ver, discernir e julgar a realidade eclesial e socioambiental da Pan-Amazônia.

Do ponto de vista eclesial, o exemplo da forma como se deu este Sínodo especial sobre Amazônia deixou um chamado a todas as igrejas particulares, qual seja o de buscar também viver a experiência de maior sinodalidade, ou seja, a experiência de caminhar juntos como Igreja composta em sua diversidade, mas sempre unida em torno à pessoa do Papa, como ocorreu no sínodo, no qual líderes indígenas, cardeais da cúria romana, teólogos, religiosos, cientistas, missionários, bispos etc. juntos puderam respirar um clima de grande respeito pela opinião de cada participante na busca de um consenso que expressasse o que Deus estava pedindo a todos. Por outro lado, os “novos caminhos” para a Igreja, apontados no sínodo, devem agora se traduzir em iniciativas concretas na direção do fortalecimento institucional da presença e liderança dos leigos em geral, bem como das mulheres em particular, o que de fato já está acontecendo em muitos lugares no interior do Amazônia, marcado pela ausência de padres. Trata-se de reconhecer que essas lideranças leigas e femininas podem e devem representar cada vez mais a Igreja institucional e ministerialmente.

Todo esse movimento de conscientização criado pelo sínodo amazônico deve nos levar a uma mudança de hábito, assumindo em nossa vida pessoal, familiar e na sociedade como um todo, um novo estilo de vida, que preserve o meio ambiente e cuide melhor de nossa casa comum, que é o planeta Terra. Certamente, foi uma verdadeira inspiração divina a ideia do Papa Francisco em convocar um sínodo para refletir sobre a necessidade urgente de salvar o bioma amazônico e, por extensão, todo o planeta, das ameaças de destruição advindas de políticas econômicas equivocadas e de projetos predatórios, que visam apenas o lucro imediato de determinados setores ou grupos. Mas, isso de nada adiantará se cada um de nós não assumir em nosso microuniverso uma nova forma de relacionar-nos com a criação.

Em linha de continuidade com o sínodo, as propostas presentes do Documento Final foram posteriormente aprofundadas por meio da Exortação Apostólica pós-sinodal, de autoria do Papa Francisco.

III. Exortação Apostólica “Querida Amazônia”: A Amazônia como lugar teológico11

A primeira coisa que chama a atenção de quem leu a exortação apostólica pós-sinodal do Papa Francisco sobre o Sínodo da Amazônia é o seu título, com a frase sugestiva: “Querida Amazônia”. Isso parece indicar que a mensagem que o sucessor de Pedro deseja transmitir, desde o início de sua exortação, aos povos e às Igrejas da Amazônia é que eles são amados, amados pelo Papa, assim como todas as outras criaturas de Deus presentes ali, ou seja, toda a sua biodiversidade. E é esse amor, esse “gostar”, que o levou a tomar iniciativas como a convocação de um sínodo especial sobre essa região, convidando os católicos de todo o mundo, juntamente com as pessoas de boa vontade, a cuidar desta parte vital do planeta, seguindo o exemplo do próprio Senhor Jesus, “que, em primeiro lugar, cuida de nós, nos ensina a cuidar de nossos irmãos e irmãs e do ambiente que nos é dado todos os dias”. Pois quem ama, cuida. Logo em seguida, o leitor se depara com outra surpresa preparada pelo Papa: em vez de apresentar conclusões teóricas ou se deter apenas em propostas concretas de ação para a Amazônia, ele prefere compartilhar conosco quatro sonhos sobre sua amada Amazônia: um sonho social; um sonho cultural; um sonho ecológico e um sonho eclesial. Parece-nos importante, portanto, refletir sobre o conteúdo desses sonhos e o valor teológico que eles ocupam no documento que estamos conhecendo agora.

O Papa Francisco já havia antes usado esse mesmo estilo de linguagem – o sonho – para se comunicar com a sua Igreja. De fato, em seu primeiro ano de pontificado, ele escreveu a Exortação Apostólica Evangelii Gaudium, na qual diz: “Sonho com uma opção missionária capaz de transformar tudo, para que os costumes, estilos, tempos, linguagem e toda a estrutura eclesial se tornem um canal mais favorável à evangelização do mundo atual do que à autoconservação”, recordando as sábias palavras de São João Paulo II, para quem “toda renovação na Igreja deve tender para a missão, para não cair vítima de uma espécie de introversão eclesial”. Da mesma forma, por ocasião da publicação da Exortação apostólica pós-sinodal Christus vivit, o Papa Francisco voltou a recordar a importância de “mostrar outros sonhos que este mundo não oferece”, ou seja, sonhos de generosidade, de serviço, de pureza, de força, de perdão, de fidelidade à própria vocação, de oração, de luta pela justiça e pelo bem comum, de amor aos pobres, de amizade. Francisco também recordou que Jesus pode unir todos os jovens da Igreja em um único sonho, “um grande sonho, um sonho capaz de envolver a todos”. Trata-se, portanto, de uma linguagem impregnada de valor teológico que, além disso, segue a tradição bíblica que sempre destacou os sonhos como instrumento privilegiado através do qual Deus revela sua vontade e seus desígnios.

O Papa estabelece uma clara relação entre a situação atual da Amazônia e a história da criação e da salvação, bem como o fato de que somos chamados a ter essa dupla consciência: ou seja, o fato de que somos sempre criaturas dependentes em tudo daquele que nos criou e moldou (Jr 18, 6: “Eis que, como o barro nas mãos do oleiro, assim serás tu nas minhas mãos”); e, por outro lado, que o Senhor deseja que participemos de sua ação criadora e salvífica, como colaboradores da Missio Dei, sendo discípulos e missionários de seu Filho, chamando-nos desde o início a compartilhar a responsabilidade pela vida de nossos irmãos e das demais criaturas (Gn 4, 9: “Onde está teu irmão?”). Parece-me que é ao incorporar em seu sonho ecológico as vozes vindas da Amazônia por meio do documento preparatório do Sínodo e confirmadas pelos padres sinodais, o Papa desejava nos deixar como legado o ensinamento de que abusar da natureza é também abusar dos irmãos e das irmãs, bem como da própria criação e do Criador, colocando em risco todo o nosso futuro. Para Francisco, essa renovada consciência da Igreja sobre o valor da criação deveria ser um dos principais fatores que a leva a desejar contribuir para o cuidado da casa comum e da Amazônia.

Diante do “pecado ecológico”, definido pelos padres sinodais como “uma ação ou omissão contra Deus, contra os outros, a comunidade e o meio ambiente”, o Papa apresenta seu sonho ecológico, ensinando que, para viver a fé de modo a alcançar a plena comunhão com Deus, é indispensável cultivar uma espiritualidade de ecologia integral que promova entre nós, a comunidade dos discípulos missionários, o cuidado da criação, de forma cada vez mais participativa e inclusiva, como se lê no Documento Final do Sínodo.

E, assim como o relato bíblico do evento salvífico é marcado não apenas pelo encontro salvífico de Deus com os homens, mas também por histórias de violência, destruição e desobediência ao projeto de Deus, diante das quais os profetas não se calaram, da mesma forma, o Papa exorta a todos a uma nova educação que gere em nós a mudança e a superação de certos hábitos, como o consumismo e a cultura do descarte, que geram não apenas destruição ambiental, abuso dos recursos naturais e falta de respeito pela natureza, mas também enormes crises sociais, com violência e destruição de vidas humanas.

Embora toda a preocupação expressa pelo Papa com as questões ambientais e sociais possa criar a falsa impressão de que se trata de um documento de menor valor teológico, sua exortação pós- sinodal tem, inegavelmente, uma dimensão profundamente teológica e cristológica, sendo, em última análise, o que justifica todo o seu empenho em favor de uma ecologia integral. De fato, explica Francisco, Deus não apenas criou tudo o que existe, mas entregou-se a si mesmo em Jesus Cristo, nosso Senhor, que cuida de nós em primeiro lugar, ensinando-nos que devemos cuidar de nossos irmãos e irmãs e do ambiente que Ele nos oferece todos os dias. Para o sucessor de Pedro, não há dúvida de que “esta é a primeira ecologia de que precisamos”, pois, no fundo, “todas as criaturas do universo material encontram seu verdadeiro significado no Verbo encarnado, porque o Filho de Deus incorporou em sua pessoa parte do universo material, onde introduziu um germe de transformação definitiva”.

Creio ser pertinente afirmar essa consciência cristológica, tão presente no magistério de Francisco, longe de ter desviado a sua atenção ou enfraquecido o seu olhar sobre a situação dramática em que vivem os povos indígenas e a biodiversidade amazônica, tornou ainda mais evidente que é pelo seguimento de Cristo que ele teve sempre essa preocupação, deixando-nos, portanto, como legado espiritual o ensiento de que todos nós, cristãos, temos uma missão a cumprir em defesa da vida ameaçada na Amazônia e em outras partes do mundo. Pois, diante do mal, devemos indignar-nos como fazia Jesus (cf. Mc 3,5), sem jamais nos acostumarmos com o mal, nem ficar insensíveis à realidade social, quando a vida de milhões de pessoas em todo o mundo está em perigo.

De fato, ao falar de seu sonho social, Francisco lembra que é do coração de Cristo que brota a caridade anunciada pelos Evangelhos e que ela deve ser sempre acompanhada pelo desejo de justiça, fraternidade, solidariedade e capacidade de se relacionar e encontrar-se com os outros. Existem, portanto, alguns critérios muito claros para saber se estamos realmente seguindo Jesus, o que, segundo o Papa Francisco, implica necessariamente assumir o rosto misericordioso de Cristo em nossa vida concreta e na ação da Igreja, pois também para ela “a misericórdia pode tornar-se mera expressão romântica se não se manifestar concretamente na tarefa pastoral”, completa o Papa, comentando assim seu sonho eclesial. Como Vigário de Cristo no mundo, Francisco assumiu o clamor dos pobres, assim como os profetas que chamavam o povo de Israel a “romper as cadeias da iniquidade, desatar os laços do jugo e libertar os oprimidos” (Is 58, 6), ensinando que este é o verdadeiro jejum agradável a Deus.

Assim, o pontificado de Francisco nos confirmou de que é movido pelo seguimento de Cristo que todo cristão é chamado a denunciar os modelos econômicos prejudiciais à Amazônia, frutos de uma economia globalizada que se afasta dos valores evangélicos, prejudicando “a riqueza humana, social e cultural”, em vez de procurar promover a dignidade humana, por meio de uma economia solidária e autossuficiente. Em tudo isso, encontramos uma perfeita fidelidade da mensagem de Francisco e o que nos ensina o Catecismo da Igreja, no qual lemos que “em matéria econômica, o respeito pela dignidade humana exige a prática da virtude da temperança, para moderar o apego aos bens deste mundo; a virtude da justiça, para salvaguardar os direitos dos outros e dar-lhes o que lhes é devido; e a solidariedade, segundo a regra de ouro e segundo a generosidade do Senhor, que ‘sendo rico, tornou-se pobre, para nos enriquecer com a sua pobreza’”.

Do ponto de vista teológico, convém também notar que boa parte da exortação apostólica do Papa em relação ao Sínodo sobre a Amazônia diz respeito à ação do Espírito Santo sobre a Igreja naquela região, mas com alcance universal. Não poderia ser de outra forma, visto que o tema escolhido para aquele Sínodo fala de “novos caminhos para a Igreja”. Francisco, de fato, esclarece desde o início de sua exortação que espera que toda a Igreja seja enriquecida e interpelada pelo trabalho realizado pelos Padres sinodais, cujas conclusões se encontram no Documento final, a ser acolhido com empenho pelos católicos e a inspirar todas as pessoas de boa vontade.

Conclusão

Em conclusão, cabe retomar o sonho eclesial do Papa Francisco, no qual se destacam algumas características, dentre as quais sobressai a dimensão teológico-espiritual da “sinodalidade”.

De fato, no que diz respeito à sinodalidade, o texto papal aproxima-se, sem dúvida, daquilo a que os Padres sinodais chamaram de “espírito sinodal” ou “conversão sinodal”, sugerindo uma renovação na forma de estruturar as Igrejas locais em cada região e país, de modo que, imbuídas desse espírito sinodal, possam se organizar segundo essa dinâmica, como autênticos organismos de “comunhão”, traçando caminhos comuns de evangelização, de forma mais descentralizada, sem enfraquecer o vínculo com a Igreja universal. Para o Papa, no caminho evangelizador da Igreja na Amazônia, um dos exemplos inspiradores dessa sinodalidade foram, historicamente, as comunidades eclesiais de base, quando souberam integrar a defesa dos direitos sociais com o anúncio missionário e a espiritualidade.

Por fim, constata-se que tudo o que foi recordado e identificado como legado espiritual deixado pelo Santo Padre Francisco, cujo primeiro ano de sua páscoa é celebrado neste mês, somente poderá realizar-se plenamente mediante o compromisso dos batizados e batizadas, no exercício de sua vocação de discípulos e missionários, em colaborar com a missão de Cristo, deixando-se conduzir pelo Espírito Santo, verdadeiro protagonista do caminho sinodal ao qual a Igreja é chamada a percorrer.

Para isso, faz-se de fundamental importância a renovação do modelo de formação do clero, da vida consagrada e dos agentes pastorais em geral, para que todos se abram a este novo sopro do Espírito, a partir de uma espiritualidade encarnada, dialogante, inculturada e misericordiosa que, sendo verdadeiramente evangélica, faça da Igreja uma Igreja em saída ao encontro de outras culturas e cosmovisões de mundo, levando a todas as partes a boa nova do domingo de Páscoa, ainda celebrado nesta oitava pascal. Pois, em última análise, como ensinava o Papa Francisco, não há lugar, situação ou cultura que não seja tocada pela presença do Ressuscitado.

Referências

  1. Amoris Laetitia. (2016). Exortação Apostólica Pós-Sinodal Amoris Laetitia: Sobre o amor na família. Libreria Editrice Vaticana.
  2. Bento XVI. (2007, 10 de maio). Discurso no encontro com os jovens no Estádio do Pacaembu, São Paulo. Libreria Editrice Vaticana.
  3. Conferência Nacional dos Bispos do Brasil. (1972). Documento de Santarém. CNBB.
  4. Christus Vivit. (2019). Exortação Apostólica Pós-Sinodal Christus Vivit: Aos jovens e a todo o povo de Deus. Libreria Editrice Vaticana.
  5. Documento Final do Sínodo para a Amazônia. (2019). Documento Final do Sínodo dos Bispos para a Região Pan-Amazônica: Amazônia: novos caminhos para a Igreja e para uma ecologia integral. Libreria Editrice Vaticana.
  6. Evangelii Gaudium. (2013). Exortação Apostólica Evangelii Gaudium: Sobre o anúncio do Evangelho no mundo atual. Libreria Editrice Vaticana.
  7. Francisco. (2013, 27 de julho). Discurso no encontro com o episcopado brasileiro, Rio de Janeiro. Libreria Editrice Vaticana.
  8. Francisco. (2018, 19 de janeiro). Discurso no encontro com os povos da Amazônia, Puerto Maldonado, Peru. Libreria Editrice Vaticana.
  9. João Paulo II. (1991, 16 de outubro). Discurso no encontro com representantes das comunidades indígenas do Brasil, Cuiabá. Libreria Editrice Vaticana.
  10. Laudato si’. (2015). Carta Encíclica Laudato si’: Sobre o cuidado da casa comum. Libreria Editrice Vaticana.
  11. Amazônia, um lugar teológico. (2020). Amazônia, um lugar teológico: Comentário teológico-espiritual do Documento Final do Sínodo e da Exortação Apostólica “Querida Amazônia”. Edições Loyola.
  12. Paulo VI. (1971, 10 de outubro). Mensagem aos peregrinos de Belém do Pará. Libreria Editrice Vaticana.